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Em 70% dos casos, abandonar a prefeitura para disputar o governo é um péssimo negócio

Por Redação
16/02/2026 - 08:41
Eduardo Paes (PSD) e João Campos (PSB)

Eduardo Paes (PSD) e João Campos (PSB)

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De O Globo – Inédito em capitais como Rio e Recife, onde Eduardo Paes (PSD) e João Campos (PSB) devem deixar seus cargos até abril, o movimento de abandonar o mandato no meio para disputar o governo estadual deu errado, neste século, em 70% das vezes. Dos 19 que tentaram, apenas seis conseguiram se eleger governador.

Entre os casos bem-sucedidos, destacam-se dois tucanos de São Paulo: João Doria, em 2018, o último no país que teve sucesso, e José Serra, em 2006, caso mais emblemático de escrutínio sobre a decisão de interromper mandato. Os demais exemplos foram Wilma Faria (Rio Grande do Norte), em 2002; Marcelo Déda (Sergipe), em 2006; e Beto Richa (Paraná) e Ricardo Coutinho (Paraíba), em 2010.

Na lista dos que tentaram sem êxito aparecem nomes conhecidos da política nacional. Em 2002, o petista gaúcho Tarso Genro deixou a prefeitura de Porto Alegre e concorreu ao Palácio Piratini, mas foi derrotado. Depois, ele comandaria diferentes ministérios do governo Lula e conseguiria se eleger governador em 2010, oito anos após a primeira tentativa.

Um dos baques mais recentes foi o do ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil. Ainda pelo PSD, ele tentou enfrentar o então candidato à reeleição Romeu Zema (Novo) em 2022. O governador, no entanto, sagrou-se vitorioso logo no primeiro turno. Minas tem 853 municípios, e apenas 11% da população do estado mora em BH. Em outubro, Kalil pretende estar de novo nas urnas, agora pelo PDT e com Zema já fora do páreo.

— É uma espécie de quebra de contrato, de compromisso. Não tenho receio em arriscar que essa punição vem da quebra dessa expectativa de eleger uma pessoa para governar quatro anos — aponta o cientista político Marco Antonio Teixeira, professor da FGV EAESP, sobre o levantamento.

Em 2004, ao longo da campanha para prefeito, Serra precisou responder se firmava o compromisso de não deixar a cidade no meio do mandato para disputar o governo. Chegou a assinar um papel para oficializar a promessa. Apesar do descumprimento, elegeu-se governador dois anos depois. O episódio, contudo, passou a assombrá-lo. Na campanha municipal de 2012, quando almejou voltar à prefeitura paulistana, o vencedor Fernando Haddad (PT) explorou o caso. Para Serra, o documento assinado no passado era apenas um “papelzinho”.

Prefeitos de capitais que largaram mandato no meio e tentaram governo desde 2002 — Foto: Editoria de Arte

Vitória e frustração

O outro capítulo na maior cidade do país foi com João Doria. Outsider, o empresário conseguiu se eleger prefeito em 2016, e todo mundo sabia desde então que ele nutria ambições presidenciais. Após deixar a prefeitura com pouco mais de um ano de gestão, conseguiu virar governador numa disputa apertada, calcado no voto “BolsoDoria” e na força que o PSDB ainda tinha no interior paulista. Na capital, que dois anos antes lhe dera uma vitória superlativa já no primeiro turno, o tucano perdeu para Márcio França (PSB) com quase um milhão de votos de diferença.

Quando repetiu o movimento de deixar a administração — desta vez a estadual — para tentar a Presidência, Doria não conseguiu sequer fazer a candidatura avançar no partido.

— O Doria foi um caso bem emblemático, porque mal começou o mandato de prefeito e já queria ser presidente da República. Acabou sendo candidato ao governo e teve sucesso, mas depois, ao tentar de novo sair do governo para ser presidente, não apenas não teve êxito na candidatura, como não fez o sucessor (Rodrigo Garcia) no estado — rememora Teixeira.

No Rio, não existe essa tradição. O único ex-prefeito da capital que virou governador foi Marcello Alencar, em 1994, mas ele já tinha deixado o cargo quando passou por um rebranding, rompeu com o ex-governador Leonel Brizola e migrou do PDT para o PSDB, partido então embalado pelo Plano Real. Um outro prefeito também dissidente do brizolismo, só que do interior fluminense, fez esse movimento e deu certo: Anthony Garotinho, de Campos dos Goytacazes, em 1998.

Paes, portanto, vai ser o primeiro da capital a tentar a sorte, na contramão da promessa feita em 2024, durante e depois da campanha, quando disse que ficaria até o fim do mandato. Logo após a vitória, ele recebeu o GLOBO e se recusou a assinar uma bem-humorada “carta” de compromisso apresentada pela Ema Jurema, blogueira do jornal Extra.

A despeito das negativas do prefeito, a sua postura desde a campanha indicava que ele não completaria o quarto mandato à frente da cidade. Uma delas foi a escolha do vice da chapa, Eduardo Cavaliere (PSD), um dos integrantes de seu núcleo duro. Com a indicação, houve uma leitura inequívoca de que ali já estava definida a sucessão.

— Paes é um caso muito específico: é prefeito pela quarta vez e, na última eleição, se elegeu com as pessoas sabendo que faria esse movimento, apesar de ter negado. A escolha do vice deixava isso muito evidente. Minha avaliação, portanto, é de que essa cobrança por ter deixado a prefeitura não será um elemento tão importante na eleição estadual — analisa a historiadora Marly Motta, professora aposentada da FGV CPDOC.

Desafio mesmo, para Paes, será a expansão para fora da capital, observa a autora do livro “E agora, Rio? Um estado em busca de um autor”. Fundado por decreto da ditadura militar em 1974, o atual desenho do estado do Rio agrupou duas unidades federativas, a Guanabara e o antigo Rio, de perfis políticos bastante distintos.

— O que pode ser um elemento é o perfil que ele sempre teve de exaltar a capitalidade do Rio e aspectos da vida carioca. São pautas que não têm apelo na Baixada, no interior — afirma Marly Motta.

Caso pensado

João Campos, no Recife, compartilha semelhanças com Paes. Já se falava na campanha à reeleição que ele deixaria a cidade no meio, e a escolha do vice também foi por um nome do círculo mais próximo do prefeito, Victor Marques (PCdoB). Como desafio, o presidente nacional do PSB enfrenta o fato de a governadora Raquel Lyra (PSD) estar apta à reeleição. Campos precisa superar a máquina estadual e o poder de atração que ela exerce sobre prefeitos do interior.

O prefeito recifense, no entanto, tem a herança familiar como ativo para atrair o eleitor de fora da capital. É filho de Eduardo Campos e bisneto de Miguel Arraes, dois populares ex-governadores de Pernambuco.

Quem também cogita a empreitada é o prefeito de Maceió, João Henrique Caldas, o JHC (PL). Ele deverá se desincompatibilizar em abril, mas interlocutores avaliam que dificilmente vai encarar a eleição de governador se o ministro dos Transportes, Renan Filho (MDB), disputar o cargo.

Pelo Brasil, sobretudo fora dos estados mais populosos, existem casos de prefeitos do interior que viraram governadores após interromperem seus mandatos. Entre nomes conhecidos, há Cássio Cunha Lima, que deixou a prefeitura de Campina Grande e virou governador da Paraíba.

Tags: Eleições 2026João CamposPernambuco
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