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Home Política

Entenda a suspeita de vazamento na PF relacionada a Flávio Bolsonaro e Queiroz

Ex-aliado de Jair Bolsonaro, empresário Paulo Marinho relatou que filho do presidente soube com antecedência de operação que expôs assessor

Por Ricardo Antunes
18/05/2020 - 08:52
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João Paulo Saconi, do Globo – Além de repercutir amplamente no noticiário político, as declarações recentes do empresário Paulo Marinho, ex-aliados do presidente Jair Bolsonaro, podem ter desdobramentos com potencial para impactar a vida política do presidente Jair Bolsonaro e de seu filho mais velho, o senador Flávio Bolsonaro.

 

Ao jornal “Folha de S.Paulo”, Marinho afirmou que Flávio soube com antecedência da Operação Furna da Onça, deflagrada em novembro de 2018 pela Polícia Federal (PF) responsável por expor movimentações financeiras suspeitas de Fabrício Queiroz, então chefe de segurança do parlamentar. Em nota, Flávio disse que a declaração do ex-aliado é “invenção de alguém desesperado e sem votos” e que Marinho tem interesse em prejudicá-lo porque é seu substituto no Senado. Abaixo, perguntas e respostas sobre as declarações de Marinho ajudam a entender o caso.

Quais os principais pontos relatados por Paulo Marinho?

O empresário disse à “Folha” que um assessor de Flávio Bolsonaro foi informado por um delegado da Polícia Federal, entre o primeiro e o segundo turnos da eleição de 2018, que seria deflagrada a Furna da Onça, que expôs detalhes das movimentações financeiras sobre Fabrício Queiroz, seu assessor naquele momento. Marinho também revelou que policiais federais simpatizantes da candidatura de Jair Bolsonaro teriam postergado a operação para que ela ocorresse apenas após a realização do segundo turno. O delegado teria sugerido que Flávio tomasse “providências” antes da operação.

Como o vazamento teria acontecido?

Marinho afirmou que Flávio Bolsonaro teria dito que um assessor seu de confiança, o ex-coronel Miguel Ângelo Braga (que hoje chefia seu gabinete no senado), recebeu, logo após o primeiro turno, uma ligação de um delegado da PF do Rio que dizia ter uma informação de interesse de Flávio. Este, consultado, mandou Braga encontrá-lo. A reunião teria ocorrido na porta da Superintendência da PF na Praça Mauá, zona portuária do Rio, na presença do advogado Victor Alves e de outra pessoa da confiança do senador, Val Meliga.

Quando e por que Flávio Bolsonaro teria relatado o vazamento a Paulo Marinho?

O diálogo entre Flávio e Marinho teria acontecido em 13 de dezembro de 2018, na casa do empresário no Jardim Botânico, Zona Sul do Rio, quando a Furna da Onça já havia sido deflagrada. O filho de Bolsonaro havia procurado o empresário porque queria uma indicação de advogado criminalista, uma vez que as investigações o implicavam, segundo o relato. Participaram do encontro e são testemunhas da conversa, garante o empresário, o advogado Victor Granado Alves, da confiança de Flávio, e o advogado Christiano Fragoso, indicado à defesa do senador na ocasião.

O empresário Paulo Marinho, 68, em sua casa no Rio de Janeiro – Ricardo Borges – 28.ago.2019/UOL

O que Flávio Bolsonaro disse sobre o susposto vazamento?

Após a entrevista de Paulo Marinho, o senador divulgou uma nota na qual afirmou que a declaração do ex-aliado é “invenção de alguém desesperado e sem votos” e que Marinho tem interesse em prejudicá-lo porque é seu substituto no Senado. Marinho é pré-candidato à prefeito do Rio pelo PSDB desde março.

Qual a justificativa de Paulo Marinho para trazer as revelações a público somente agora, um ano e meio após as eleições de 2018?

Em uma mensagem publicada no Twitter após a repercussão da entrevista, o empresário afirmou que “considerou necessário dar publicidade às informações que podem colaborar com as investigações sobre a tentativa de interferência na PF”. Marinho também disse que tomou a decisão de fazer as revelações após a demissão do ex-ministro da Justiça Sergio Moro, que deixou o governo no fim de abril e acusou o presidente Jair Bolsonaro de tentar fazer interferências políticas na PF, sobretudo na superintendência fluminense da corporação.

Qual a razão da proximidade entre Flávio Bolsonaro e Paulo Marinho em 2018?

Hoje filiado ao PSDB do Rio, Marinho foi um dos principais articuladores da campanha de Jair Bolsonaro à Presidência em 2018. A casa do empresário foi utilizada para centralizar as atividades da candidatura e era conhecida como o quartel-general dos Bolsonaro em território fluminense — aprimeira reunião da equipe do presidente após a vitória das eleições aconteceu no local. Marinho e o presidente se conheceram por intermédio do ex-ministro Gustavo Bebianno (Secretaria-Geral da Presidência), demitido no início do ano passado e morto em março deste ano após sofrer um infarto.

O que aconteceu após a eleição para que Paulo Marinho tenha se distanciado de Bolsonaro e da família do presidente?

Em entrevista à revista “Veja”, em fevereiro deste ano, Marinho disse que “entendeu que era hora de cuidar da própria vida” após o fim da campanha. A proximidade construída com Bolsonaro até a eleição não se manteve nos meses seguintes e o distanciamento se agravou com a demissão de Bebianno, de quem Marinho era amigo de longa data. Em junho de 2019, Marinho se filiou ao PSDB com a missão de renovar o partido no Rio. Ele recebeu a tarefa por intermédio de outro aliado, o governador João Doria (SP), adversário político de Bolsonaro.

A denúncia feita por Paulo Marinho à “Folha” será investigada?

No domingo, após a repercussão da entrevista, a PF informou que irá abrir um inquérito para apurar o vazamento de informações relativas à Operação Furna da Onça. O procurador-geral da República, Augusto Aras, também tomou conhecimento dos relatos de Marinho e pediu que o empresário seja ouvido pela PF no âmbito do inquérito que já apura, desde a demissão de Moro, as supostas tentativas de interferência do presidente Bolsonaro na corporação. Aras também determinou que o coronel Miguel Ângelo Braga seja convidado a depor.

Fabrício Queiroz e Flávio Bolsonaro Foto: Reprodução

Miguel Ângelo Braga confirmou o episódio relatado por Paulo Marinho?

Procurado pelo GLOBO no domingo, após a veiculação da entrevista do empresário, o coronel limitou-se a dizer, antes de desligar o telefone: “Não me meto nessa área, não. Obrigado”. Caso seja ouvido pela PF, como solicitou Aras, o militar deve ser questionado por investigadores  a respeito dos relatos de Marinho.

Paulo Marinho apresentou provas do que relatou durante a entrevista?

Na entrevista à “Folha”, o empresário afirmou que tinha anotado as datas em que os episódios relacionados a Flávio aconteceram. Ele não revelou provas à reportagem, embora tenha citado pessoas que teriam presenciado os diálogos (os advogados Victor Granado Alves e Christiano Fragoso). A interlocutores, segundo o blog da jornalista Bela Megale, Marinho disse que “se for chamado para depor em uma eventual investigação, apresentará provas mostrando que falou a verdade”.

A PF tinha conhecimento de irregularidades de Queiroz antes das eleições?

Sim. Relatório produzido pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) em janeiro de 2018 e enviado naquele mesmo mês ao Ministério Público Federal (MPF) e à PF já mostrava irregularidades envolvendo as movimentações financeiras de Fabrício Queiroz. O relatório faz parte da documentação que deu origem à Operação Furna da Onça e trata sobre casos de transações fora do padrão de servidores da Assembleia do Rio de Janeiro (Alerj), onde Flávio Bolsonaro era deputado estadual antes de assumir a cadeira de senador.

Há alguma explicação oficial para que a Operação Furna da Onça não tenha sido deflagrada durante a campanha eleitoral?

Em nota divulgada após a veiculação da entrevista de Paulo Marinho, o desembargador Abel Gomes, relator da operação no Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2), afirmou que houve um entendimento conjunto do Judiciário, do MPF e da PF para que a ação só fosse executada após a eleição de 2018. O motivo, segundo o magistrado, não foi “beneficiar quem quer que seja”, mas evitar a falsa percepção de que a Furna da Onça tinha objetivos políticos, uma vez que seus alvos eram deputados e parte deles tentava se reeleger. Para Gomes, a operação não foi adiada, mas sim deflagrada em “momento avaliado como o mais oportuno” pelas autoridades envolvidas naquele processo de tomada de decisão.

Houve outros pontos do relato de Paulo Marinho sobre Flávio Bolsonaro que repercutiram após a entrevista?

Além das afirmações sobre um vazamento na PF, o empresário também abordou em suas declarações a relação de Flávio Bolsonaro e Fabrício Queiroz logo após a deflagração da Operação Furna da Onça. Segundo Marinho, depois que o caso se tornou público, Flávio teria dito que não fazia mais contato com Queiroz, nem o atendia, para não ser acusado de estar orientando o ex-assessor. No entanto, o senador também teria revelado a Marinho que o advogado Victor Granado Alves, que é seu assessor parlamentar e estava presente no encontro do dia 13 de dezembro de 2018, continuava em contato com o ex-policial militar. Indicado por Marinho para auxiliar Flávio em sua defesa, o advogado Christiano Fragoso recomendou que se arranjasse um advogado para Queiroz e indicou Ralph Hage Vianna.

O advogado indicado para a defesa de Queiroz confirma ter sido procurado pelo ex-assessor de Flávio Bolsonaro?

Sim. Procurado pelo GLOBO, Ralph Hage Vianna admitiu ter sido procurado por Queiroz para atuar junto ao caso depois que o ex-chefe de segurança do senador foi intimado para depor no Ministério Público (MP) do Rio, em dezembro de 2018. Ele não seguiu na causa e preferiu não comentar detalhes para preservar o sigilo profissional.

Tags: Fabrício QueirozFlávio Bolsonaro
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Ricardo Antunes

Ricardo Antunes

Ricardo Antunes é jornalista, repórter investigativo e editor do Blog do Ricardo Antunes. Tem pós-graduação em Jornalismo político pela UnB (Universidade de Brasília) e na Georgetown University (EUA). Passou pelos principais jornais e revistas do eixo Recife – São Paulo – Brasília e fez consultoria de comunicação para diversas empresas públicas e privadas.

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