De O Globo – O voo 402 da TAM decolou do Aeroporto de Congonhas às 8h25 daquela quinta-feira, 31 de outubro de de 1996, levando 90 passageiros e seis tripulantes. A aeronave Fokker 100 prefixo PT-MRK tinha como destino o Rio, mas, apenas 30 segundos depois depois de sair da pista, uma pane na turbina direita fez o avião começar a perder altitude rapidamente até cair sobre diversas casas do bairro Jabaquara, na Zona Sul de São Paulo. Todos a bordo morreram, além de quatro pessoas no solo.
A tragédia, ocorrida há exatos 30 anos. poderia ter sido muito pior. Em sua trajetória de queda, o piloto da aeronave desviou da Escola Estadual Ângelo Mendes de Almeida, onde havia cerca de mil crianças e adolescentes no momento do acidente. Um estudante que jogava vôlei na quadra observou quando o avião evitou se chocar com a unidade de ensino. “Estou livrando a escola”, disse o comandante José Antônio Moreno para a torre de controle do aeroporto, poucos segundos antes de morrer.
Dirigentes do colégio, estudantes e moradores do Jabaquara viram cenas terríveis após a queda do Fokker 100. A edição do Jornal O GLOBO no dia seguinte à tragédia reproduziu relatos de testemunhas descrevendo a situação dos corpos, algo que era comum na imprensa. Hoje, os tempos são outros, e a equipe do Blog do Acervo opta por não resgatar detalhes tão perturbadores.
“Foi situação que nunca imaginei”, concluiu Juraci de Cássia Fonseca, diretora da escola. “Tenho certeza de que ele salvou nossas vidas, pois muitos alunos me contaram que viram o avião desviar o bico da nossa caixa d’água. Eu estava na minha sala e, além do barulho do motor, que foi muito maior do que das outras decolagens, vi uma sombra enorme passando pela janela. Se ele tivesse tocado ou batido na caixa d’água, nós todos estaríamos mortos. Nascemos de novo graças ao que o piloto fez”.
No aeroporto e no apart-hotel para onde a TAM encaminhava os parentes das vítimas, as imagens e os sons de uma dor indescritível eram desoladoras. Durante muitas horas, cerca de 300 agentes do Corpo de Bombeiros, da Polícia Militar, do Exército e da Defesa Civil, além de voluntários, atuaram no resgate dos corpos carbonizados, recolhendo também itens que poderiam ajudar na identificação de vítimas. A maioria delas só poderia ser identificada por meio da comparação de suas arcadas dentárias.

Em meio aos destroços, a equipe de resgate encontrou 4kg de cocaína divididos em quatro pacotes, com 1kg em cada. De acordo com as investigações, um ex-oficial de Justiça do Mato Grosso que já tinha sido condenado por tráfico era o principal suspeito. Ele havia embarcado em Cuiabá com a mulher e tinha o Rio como destino final. Ambos morreram no desastre.
As causas do acidente que gerou consternação no Brasil foram investigadas ao longo de meses. Em dezembro de 1997, o antigo Ministério da Aeronáutica divulgou um relatório do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) confirmando suspeitas iniciais.
Segundo o documento, um equipamento do motor direito do Fokker 100 chamado reverso, usado para reverter a velocidade da aeronave na hora do pouso, abriu-se no momento da decolagem por causa de um defeito mecânico. A falha funcionou como um freio justamente quando o avião ganhava altitude e velocidade, ocasionando a queda. Na cabine de comando, os pilotos foram surpreendidos pelo recuo do manete (acelerador manual) e tomaram medidas desesperadas que agravaram a situação.
De acordo com o relatório, o copiloto avançou o manete, que recuou mais uma vez. O comando da aeronave, então, começou uma “batalha” com o equipamento, o que causou o rompimento do cabo que liga as hastes às turbinas. O piloto, assim, perdeu o controle do Fokker 100, já que, enquanto o motor esquerdo acelerava, o outro executava um movimento contrário, de desaceleração do avião. A aeronave caiu na Rua Luiz Orsini de Castro, destruindo diversas casas em um lado da via.
Hoje chamada Latam, a companhia aérea foi condenada a indenizar as famílias das vítimas, que também obtiveram vitórias na Justiça em processos contra as fabricantes do Fokker 100 e da peça que apresentou o defeito na origem da tragédia.











