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Filho de sambista que tocava iê-iê-iê, Melodia foi fenômeno da modernidade.

Por Ricardo Antunes
21/09/2019 - 16:09
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Por Jotabê Medeiros

Antes de Luiz Melodia, do morro descia primordialmente sambista. Daí veio um magrelinho eclético, com simetria de jazzista, malemolência de soulman, suingue de bluesman, sorriso de Orfeu. Melodia, pérola negra pós-tropicalista, era um fenômeno da modernidade que tinha sido forjado, conforme ele mesmo contava, tocando iê-iê-iê com sua boy band Os Instantâneos no berço do samba, o Estácio. E era filho de sambista, Oswaldo Melodia, o que resultou em um jeito profundamente original de compor e interpretar. Melodia morreu nesta sexta-feira (4), aos 66 anos.

Em 1971, Melodia já tinha uma composição que o precedia nos saraus e entre os anfitriões abonados da zona Sul do Rio: “My Black, Meu Nego”, com versos que tangenciavam uma nova sensibilidade de artista. “Tente passar pelo que estou passando”, cantava, lamentosamente. A música, logo depois, seria rebatizada como “Pérola Negra”, por sugestão do poeta baiano Waly Salomão (que foi quem o “descobriu” no Morro de São Carlos, junto com o tropicalista piauiense Torquato Neto). Gravada por Gal Costa em 1972, seria o abre-alas de Melodia pela nova MPB.

Embora iniciante, Melodia marcou logo de cara com o que chamaram de “irreverência” e “inquietude”, mas que era apenas intuitiva convicção: após a estreia com “Pérola Negra”, em 1973, ele recusou-se a gravar discos no ritmo da indústria, não quis entrar na máquina de produção frenética. Isso lhe valeu precocemente um rótulo, o de maldito, coisa que cabia em todo artista que não se enquadrasse.

Melodia surgiu em uma cena de vibrantes novidades, no início dos anos 1970, que já não tinha a responsabilidade de carregar manifestos de movimentos (Tropicália) nem carteirinhas de irmandades harmônicas (bossa nova). Eles, Belchior, Sergio Sampaio, Fagner, o próprio Raul Seixas, estavam entre os destaques.

Quando apareceu Itamar Assumpção, em 1980, tentaram defini-lo como um clone de Melodia, ao que Itamar respondeu com vívida inteligência, na canção “Quem é Cover de Quem”: “Dizem formamos de fato um belo par de malditos/Te chamam de Negro Gato me tratam de Nego Dito/E já que talento é inato isto já estava escrito/Num mundo cheio de chatos nós somos São Beneditos/No mais sambamos de tudo/Funk soul blues jazz rock and roll”.

Pérola Negra foi um marco da música brasileira. Melodia o refez integralmente na Virada Cultural de São Paulo de 2008, mas sem conseguir repetir os arranjos impecáveis de Perinho Albuquerque, que viraram diamantes para intérpretes da época. Bethânia também incluiria uma das músicas, “Estácio, Holly Estácio”, no álbum “Drama” (1972), um dos seus grandes discos. São alguns dos versos mais pungentes de toda a carreira de Melodia. “Se alguém quer matar-me de amor/Que me mate no Estácio/Bem no compasso, bem junto ao passo/Do passista da escola de samba/Do Largo do Estácio”. Já Gal voltaria a gravar uma composição de Melodia no disco Índia, no ano seguinte, a canção “Presente Cotidiano”.

“Pérola Negra” não vendeu horrores, mas sedimentou a reputação de Melodia. Em 1975, ele foi finalista do festival Abertura, da Rede Globo, com a canção “Ébano”. No ano seguinte, alcançou a parada de sucessos com o samba-canção “Juventude Transviada”, que foi tema da novela “Pecado Capital”, da Globo. Essa música virou bordão nas ruas do País. “Lava roupa todo dia, que agonia”. Ele incluiu a canção no seu disco “Maravilhas Contemporâneas” (Som Livre). Em 1978, o disco “Mico de Circo” trazia outro clássico, “Fadas”. Em 1989, Melodia voltaria de novo às paradas de sucesso com sua regravação de “Codinome Beija-Flor”, de Cazuza.

Entre os anos 1990 e a primeira década do novo século, Melodia foi alternando momentos de evidência com outros de discreta hibernação. De vez em quando, um hit saltava de seus álbuns e o repunha no tablado. Em meados de 2006, convidado para fazer um show especial para o aniversário de 70 anos do Teatro Rival, Melodia escolheu um repertório somente com sambas antigos, em homenagem ao pai. O show resultou no delicado “Estação Melodia”, com clássicos de Noel Rosa, Jamelão, Ismael Silva, Wilson Batista, entre outros.

Compositor de “Maura”, gravada por Melodia em 1991, quando já havia morrido, Oswaldo ressurgia na voz do filho em duas composições: “Não Me Quebre à Toa” e “Linda Tereza”. Melodia acertava contas com sua ancestralidade. “Dedico esse disco todo a meu pai, com os dois sambas dele. Ele era louco pra gravar alguma coisa comigo, o que acabou não acontecendo. E é aquela coisa, você idealiza que os pais vão viver para sempre, mas não é assim”, disse.

Afetivo e cavalheiresco, suave e alegre, Melodia surpreendia com a intensidade de sua voz, o nível de irradiação trágica que alcançava. Era como se fosse uma gangorra de emoções em uma pessoa só. Um dos grandes tributos a Luiz Melodia seguirá sendo a canção “Negra Melodia”, parceria de Jards Macalé e Waly Salomão, que descobriu Melodia. “O meu pisante colorido, o meu barraco lá no morro de São Carlos/Meu cachorro paraíba, minha cabrocha, minha cocota/A minha mona lá no largo do Estácio de Sá”.

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Ricardo Antunes

Ricardo Antunes

Ricardo Antunes é jornalista, repórter investigativo e editor do Blog do Ricardo Antunes. Tem pós-graduação em Jornalismo político pela UnB (Universidade de Brasília) e na Georgetown University (EUA). Passou pelos principais jornais e revistas do eixo Recife – São Paulo – Brasília e fez consultoria de comunicação para diversas empresas públicas e privadas.

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