Por Malu Gaspar, de O Globo – Proprietária da Go Up Entertainment, produtora responsável pelo polêmico filme “Dark Horse”, a jornalista Karina Ferreira da Gama nunca lançou nenhum filme, nem no Brasil e nem no exterior. Além da Go Up, as outras duas empresas que constam no sistema da Agência Nacional de Cinema (Ancine) no nome de Karina – a Go7 Assessoria e a ONG Instituto Conhecer Brasil – também nunca registraram nem lançaram nenhuma produção em território nacional, seja em cinema, TV aberta ou fechada.
As informações foram levantadas a pedido da equipe do blog pela Ancine, agência que regula o mercado de cinema e audiovisual brasileiro.
Karina entrou no projeto do filme pelas mãos do deputado federal Mario Frias (PL-SP), que assina o roteiro de “Dark Horse”, sobre a carreira política de Jair Bolsonaro. O filme está no centro da crise instalada pela revelação de que o pré-candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro (RJ), cobrou milhões de reais do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, supostamente para o financiamento da obra.
Após uma série de reportagens do Intercept Brasil, Flávio reconheceu ter captado R$ 61 milhões de Vorcaro, pagos por meio de uma empresa ligada a ele para um fundo administrado pelo advogado de imigração de Eduardo Bolsonaro. Nenhum deles explicou por que era necessária a intermediação do fundo, o que levantou a suspeita de que o dinheiro na verdade estivesse sendo usado para financiar o autoexílio do filho 03 nos Estados Unidos.

Os dados da Ancine sobre a GoUp reforçam as suspeitas. De acordo com a agência, a produtora teve o registro confirmado em 9 de julho de 2025 e está em situação regular, mas nunca lançou nenhum filme, seja no cinema, na TV aberta ou fechada.
Aparentemente, a empresa foi formada para fazer o filme de Bolsonaro. O contrato social na Junta Comercial de São Paulo inclusive mostra uma alteração do objeto e das atividades econômicas, em junho de 2025. Embora negue que tenha sido o caso, a sócia da Go Up, Karina reconhece que o dinheiro para a produção de “Dark Horse” começou a entrar em março de 2025, vindo do fundo mantido pelo advogado Paulo Calixto no Texas.
Só depois disso a Go UP conseguiu seus registros na Ancine e na Receita Federal —- em que passou a constar como ativa em maio de 2025, dois meses depois.
Segundo Karina, a produção e a pós-produção de “Dark Horse” já custaram o equivalente a US$ 13 milhões (o equivalente a R$ 65,7 milhões, na atual cotação do câmbio).
O valor da produção provoca estranhamento por ser muito maior do que o de filmes brasileiros recentes que foram sucesso de bilheteria e receberam múltiplas indicações ao Oscar, como “O agente secreto” (R$ 28 milhões) e “Ainda estou aqui” (R$ 45 milhões).
“É um filme caro para burro. E o Jim Caviezel é um ator decadente, nível C”, disse um renomado profissional do setor audiovisual ouvido reservadamente pelo blog, para quem o orçamento de US$ 13 milhões não se justifica.
“Quase cinquenta por cento desse orçamento é elenco. Eu tinha 11 atores americanos e 36 semanas de filmagem”, disse ela. “O projeto tinha um orçamento ainda maior. A gente cortou muitas cenas, teve que economizar e o Cyrus [o norte-americano Cyrus Nowrasteh, diretor do filme] reajustou as cenas pra gente conseguir.”
“Dark Horse” (Azarão, em tradução livre) é protagonizado pelo ator norte-americano Jim Caviezel, que interpreta o ex-presidente. Apoiador de Donald Trump, a quem já chamou de “novo Moisés”, Caviezel passou cerca de três meses no Brasil gravando. Também está no elenco Esai Morales, que interpretou o vilão de “Missão: Impossível – O acerto final”.
Projetos no papel
Karina diz que não teve nenhuma relação com a captação de recursos e que não sabe quem são os investidores além de Vorcaro — sobre o qual alega ter ficado sabendo agora, com as reportagens do Intercept.
Segundo ela, o filme de Bolsonaro não foi a sua primeira tentativa de fazer cinema. Nas outras, disse ter registrado os projetos na Ancine pela Go7 – um infantil e um documentário sobre atletas, intitulado “Atletas de Cristo” –, mas nenhum deles saiu do papel por falta de apoio. “Ela [a Go7] tem registro na Ancine bem mais antigo e tem projetos na Ancine”, afirmou.
De fato, a Go7 foi registrada na Ancine em 2005, mas não tem nenhuma obra concluída ou finalizada devidamente registrada. A agência confirmou, no entanto, que Karina já fez cadastro de um projeto e se inscreveu em um edital, mas nenhuma das duas iniciativas avançou.
Esse filme está longe de terminar.












