Do Estadão – Enfrentando uma crise em suas contas, o banco Digimais, do líder da Igreja Universal, Edir Macedo, aportou recursos em um empreendimento que sequer tem licença para ser construído e nunca saiu do papel, e em uma empresa dona de terrenos de praias altamente protegidas pela União, onde moram caiçaras, e com histórico de conflitos fundiários. Os imóveis estão alocados em fundos de investimento dos quais o banco é cotista. Eles têm patrimônio somado de R$ 526 milhões.
A reportagem procurou o banco e a igreja. Nenhum dos dois quis se manifestar.
Trata-se de investimentos com alto risco envolvido. No caso do terreno, há um projeto de condomínio a ser construído na cidade de Goiana, no nordeste de Pernambuco. A Prefeitura não autorizou e não há obras no local. Já a praia em Paraty, no Rio de Janeiro, segundo um empresário ouvido pelo Estadão, viraria uma espécie de investimento em preservação ambiental, à semelhança do crédito de carbono, que depende de uma certificação que pode sair só em 2028. Segundo integrantes do mercado financeiro, trata-se de apostas pouco usuais, principalmente em bancos com problemas financeiros, como é o caso do Digimais.
Nas últimas três semanas, a reportagem obteve auditorias sobre balanços do banco nos últimos anos, processos judiciais, contratos e outros documentos que reconstituem a criação e o uso desses fundos de investimentos que têm o próprio Digimais como cotista. Também conversou com pessoas ligadas à própria Igreja Universal, que relatam, sob condição de reserva, que o banco tem usado esses fundos para maquiar graves problemas financeiros.
Auditores independentes apontaram que cerca de 75% dos R$ 4 bilhões em aportes do banco Digimais não puderam ser devidamente escrutinados por falta de documentos que comprovem a situação de fundos nos quais esses recursos foram alocados. Documentos e relatos levantados pelo Estadão revelam qual foi o destino de pelo menos parte desses R$ 3 bilhões considerados opacos pela fiscalização sobre o banco.
Como já havia mostrado o Estadão, a maior parte desses investimentos, no valor de R$ 1,9 bilhão, está em fundos de investimento em direitos creditórios, os Fidcs. Esses fundos foram usados para o próprio banco comprar sua carteira de créditos com altos índices de inadimplência e precatórios usados para fazer negócio com a própria holding controladora do banco, que pertence a Macedo.
A reportagem também apurou onde foram parar, em parte, os R$ 2,3 bilhões investidos em fundos destinados a financiar empreendimentos imobiliários e empresas. Dessa cifra, R$ 1,9 bilhão não tinha documento suficiente para ser auditado. Em comum, dois fundos com este perfil levantados pela reportagem investem em projetos que estão longe do início ou dependem de licenças que sequer foram aprovadas.
O investimento nesses fundos foi feito nos últimos três anos, em que o banco entrou em crise e passou a ser negociado no mercado. Os aportes ocorreram no mesmo período em que, como mostrou o Estadão, o banco passou a fazer manobras para jogar carteiras cheias de financiamentos para compras de veículos, repletas de inadimplência, em fundos, o que dificulta a análise de suas contas por auditores. Dessa forma, o banco conseguiu fechar o ano com um módico lucro de R$ 31 milhões. A instituição financeira é investigada por supostas fraudes pela Polícia Federal.











