Do O Globo – Coordenadora do Observatório da Extrema Direita, a antropóloga Isabela Kalil avalia que a postura de Flávio Bolsonaro (PL) depois da derrota na eleição presidencial, que inclui a fuga do país e afirmações golpistas sobre o resultado, enfraquece o poder da família dentro do bolsonarismo. Não significa, pontua ela, que a força do movimento como um todo desaparecerá, e sim que quadros da direita que agora tentam se diferenciar desse tipo de atitude têm uma “janela de oportunidade” para enfim se desvencilhar da dependência.
Autora dos recém-publicados “Cartografia da Extrema Direita” (Contracorrente) e “Política Sintética” (Diálogos Editora), a pesquisadora afirma ainda que os filhos de Jair Bolsonaro sempre foram vistos como “playboys” por apoiadores, o que faz com que a ausência de Flávio no país não seja tão sentida.
O não reconhecimento da derrota e a fuga de Flávio do país tendem a isolar o bolsonarismo ou nada muda?
Eu distinguiria logo de cara o bolsonarismo da família Bolsonaro. A fuga enfraquece muito a família, mas não necessariamente o bolsonarismo como força social, popular. Terá um enfraquecimento institucional, mas as forças que compõem o bolsonarismo e mobilizaram as pessoas para votar no Flávio continuam existindo. O que deve acontecer é um descolamento dessa base de apoio popular da figura do Flávio.
O que o movimento dele causa nesses apoiadores?
Uma parte dos apoiadores pode sentir um abandono. Ele falou que não sairia do Brasil, mas acabou saindo sem dar satisfação. Chama atenção que ele tente falar num tom institucional na carta, sendo que para os apoiadores o que funciona é uma fala pessoal, mais direta. Quando abandona isso e tenta soar como estadista, corre o risco de semear o sentimento de abandono.
Além disso, fazendo pesquisa etnográfica, mesmo durante o governo Bolsonaro e entre os mais enraizados, sempre ouvi que os filhos do Bolsonaro eram diferentes do pai. Acreditavam que Bolsonaro era honesto, enquanto os filhos poderiam estar envolvidos em casos de corrupção. Uma palavra que eu ouvia muito era “playboy”. Ou seja, que os filhos estariam apenas se aproveitando do legado do pai. Por último, o Flávio não construiu um capital político que resultou nesses votos. Foi emprestado pelo Jair. Não é como se ele fosse uma liderança carismática da qual os apoiadores vão sentir falta.
Vimos na quarta figuras como Tarcísio de Freitas já tentando se desvencilhar. É possível?
Acredito que sim, mas depende muito não só da família Bolsonaro, como da posição do restante dessa direita. A família Bolsonaro, com o enfraquecimento, pode não conseguir controlar mais o bolsonarismo, que já virou uma força com maioria no Senado, forte representatividade na Câmara e governadores. Essa força não vai se desfazer. Mas me chama atenção esse movimento do Davi Alcolumbre (presidente do Senado) de, na tentativa de se manter no comando do Senado, cogitar anistia a Jair Bolsonaro. A direita tem uma janela de oportunidade para não interferir e responsabilizar Bolsonaro judicialmente, deixar isso acontecer. Se houver uma ideia de “pacificação” por meio de uma troca política, teremos um problema, porque assim a direita não vai conseguir escapar do bolsonarismo.
Flávio perdeu a eleição por mérito de Lula ou demérito da própria campanha?
Aconteceram as duas coisas, mas, escolhendo uma só, diria por mérito da campanha de Lula. No entanto, para entender por que Flávio perdeu, temos que levar em conta o efeito da fala capacitista no debate. Foi uma fala que fugiu das possibilidades civilizatórias da política, tanto que se desculpou rapidamente. Se os bolsonaristas têm a imagem dos filhos como “playboys”, e ali ele fala de alguém que perdeu um dedo enquanto trabalhava quando era jovem, imagina como isso pode ter pegado em diferentes segmentos da sociedade.
Outra causa: Flávio sai do primeiro turno com tanta certeza de que já ganhou a eleição que começa a montar o governo, falar em nomeação de ministros. Ele se complicou. Por último, acompanhei aquele site “Flaviômetro”, que mapeou e cobrou aliados de Flávio que pararam de fazer campanha no segundo turno. Se você precisa criar uma plataforma neste sentido, já diz muito. De acordo com o site, quase metade deixou de fazer campanha. No primeiro turno, eles faziam porque também precisavam se eleger; eleitos, pararam.
E por que Lula venceu?
A mobilização de André Janones foi impressionante. Sabemos que não é assim na ciência política, mas é muito simbólico que o número de votos conquistados entre turnos, dez milhões, seja o mesmo do número de membros do “Exército”. Além disso, eu daria uma importância ao voto das mulheres, porque vimos na campanha uma mobilização de figuras de destaque explicando que elas poderiam votar secretamente em Lula sem avisar aos parceiros. Outro efeito é a força dos jovens. Publiquei há pouco o livro “Política Sintética”, e o uso de IA para produzir memes, mobilizar fandoms de divas pop, de k-pop e do entretenimento em geral foi impressionante.
Desde que começou a acompanhar o bolsonarismo, foi a campanha presidencial menos apaixonada deles?
Não acho que seja isso, e sim que Flávio fez um movimento que foi bom para ele, de se vender como moderado para apaziguar a rejeição entre as mulheres, por exemplo. Desde a pré-campanha, dizia que era o bolsonarismo que tomou vacina. Tem um vídeo dele bem emblemático em que a esposa diz que tinha domesticado Flávio, domado aquela masculinidade. Isso acabou funcionando, e no primeiro turno ele conseguiu ir muito bem entre as mulheres. Vendeu-se como “pai de menina”. É emblemático se lembrarmos que, em 2018, Jair disse que a única filha mulher foi uma “fraquejada”. Muita gente acreditou que Flávio era um Bolsonaro moderado e não golpista, o que nos últimos dias não se sustentou.











