Por Joanna de Assis, do UOL – A promessa era tentadora: jogadores de futebol consagrados que planejavam trocar o campo pela carreira de técnico precisavam apenas fazer uma transferência de R$ 100 mil para receber diplomas que os habilitariam a treinar qualquer time do mundo. Em no máximo 10 dias, quatro licenças de técnico da ATFA, a tradicional escola de treinadores da Argentina, eram enviadas pelo correio. A PRO (internacional), a A (profissional) e os certificados B e C (base).
Thiago Silva, Luiz Gustavo, Diego Lugano, Paolo Guerrero, Roberto Carlos, Felipe Melo, Alex de Souza, Petkovic e Paulinho, entre outros, são citados como clientes pelo argentino Alejandro Mancuso, ex-volante de Palmeiras e Flamengo, que atuou no Santa Cruz nos anos 90 e chegou a ser auxiliar de Diego Maradona na seleção argentina na Copa de 2010.
Após uma investigação de quase dois anos, o UOL revela como funcionava essa “máfia das licenças”. A reportagem obteve dezenas de áudios e mensagens em que Mancuso oferece o que chamava de “trâmite urgente”, um caminho paralelo para conseguir certificados falsos de treinador, sem cumprir o processo regular de formação.
Fera, ‘crack’, monstro
O esquema tinha até um “flyer” de divulgação.
Nos áudios obtidos com exclusividade pela reportagem, Mancuso se dizia “diretor internacional da ATFA” e afirmava que o “presidente” e o “jurídico” da entidade estavam ao lado dele para “facilitar a vida dos feras”. A entidade nega qualquer ligação com o ex-jogador. O próprio Mancuso confirma isso: “Eu nunca fui da ATFA, sou apenas um comentarista de rádio”.
A ATFA é a escola de treinadores de futebol mais respeitada da América do Sul e suas credenciais (níveis A, B, C e PRO) eram apresentadas por Mancuso como valorizadas internacionalmente, especialmente para jogadores interessados em trabalhar fora do Brasil. Essa fama vem do histórico de quase 60 anos de cursos da entidade e também do sucesso dos treinadores argentinos no mundo -eram seis, por exemplo, só na Copa do Mundo de 2026.
Na prática, a história não é essa. A licença argentina e a brasileira, emitida pela CBF Academy e com apenas dez anos de história, têm os mesmos acessos e obstáculos – as regras de homologação são diferentes de país para país e, em centros europeus e asiáticos, são cobrados pelo menos três anos de experiência na função, por exemplo.
Jeitinho argentino
A investigação começou em maio de 2024, quando um ex-jogador procurou a reportagem após receber uma proposta de Mancuso por aplicativo de mensagens. Segundo ele, que pediu para que sua identidade fosse preservada, o argentino o abordou “do nada”.
Em mensagens de áudio, Mancuso valorizava a formação argentina, oferecia o atalho e afirmava que o procedimento estava acertado com Salvador Pasini, dirigente máximo da ATFA. Seria ele quem assinaria os diplomas. Essa informação é repetida para todos os jogadores ouvidos pelo UOL.
A justificativa de Mancuso era simples: grandes atletas não deveriam perder anos estudando aquilo que haviam aprendido em uma vida dentro do futebol e na Argentina existia reconhecimento. “Fechei com o nosso presidente da federação para que todas essas feras que jogaram futebol tenham um jeito para não fazer esse curso online. Pronto e acabou”, afirma Mancuso em um dos áudios. “São caras que jogaram bola a vida toda, precisa de três anos de curso online?”.
A formação real da ATFA segue um sistema progressivo de licenças. Em três anos, o aluno vai da menor graduação, a C, até a maior, a PRO, em cursos que duram entre seis e 13 meses. Existem atalhos, como cursar matérias simultaneamente. Mas há controle sobre a realização das trilhas de ensino.
Mancuso apresentava o seu procedimento como uma facilidade reservada a quem havia construído uma carreira profissional no futebol. Chamava os beneficiados de “fera”, “crack” e “monstro” e tratava as exigências acadêmicas como uma burocracia desnecessária. Para justificar os certificados analíticos (histórico escolar), afinal ninguém iria fazer prova, ele dava a seguinte orientação aos compradores.
“E como fica na federação, irmão? Na federação fica que você fez três anos de curso online. 2021, 2022, 2023. É isso aí que você tem que falar para todo mundo.”
O argumento encontrou compradores.
“Tratei com o Mancuso e tenho a licença argentina. Está suspensa porque eu não consegui cumprir o presencial. Como não vou trabalhar [como técnico], nem fui completar.”
Dejan Petkovic. A licença de Pet é uma das seis que chegaram a ser investigadas pela polícia argentina em julho de 2025.
“Eu imaginei que as licenças poderiam ser falsas quando eu comecei a cobrar pela aula presencial e o Mancuso nunca marcava. Pensei: ‘Isso aqui tá errado’. A primeira coisa que eu faço é tirar das minhas redes sociais, porque eu estava exibindo que eu era um associado da ATFA, né? E aí peço o meu dinheiro de volta. Diferente de muitos, eu consegui essa façanha aí”
Felipe Melo, ex-Palmeiras e Fluminense, que conseguiu o reembolso do valor que pagou após confrontar Mancuso. A licença de Felipe é uma das seis que chegaram a ser investigadas pela polícia argentina em julho de 2025.
“Passei a fazer vários cursos pela internet, estava aproveitando para estudar. Eu não pensava em ser treinador, mas foi tanto tempo trancado que eu nem sabia direito o que eu estava fazendo”
Paulinho, que afirma ter acreditado no discurso de Mancuso de que, na Argentina, a ATFA reconheceria a carreira dos jogadores extra-classe para emissão de licenças. “Em nenhum momento parecia ser algo ilegal ou falso.”
“Ele [Mancuso] dizia que tinha uma forma de arranjar as licenças argentinas. Ele garantiu que só era necessário um processo online e, em pouco tempo, enviaria os documentos. Eu cheguei a preencher uma papelada que ele me enviou, e aí ele me mandou os certificados pelo correio. E foi um erro, que acredito que tenha sido o erro da maioria, e eu assumo. Era para comprar facilidade, mas eu nunca usei”
Alex de Souza, ídolo do Palmeiras, que comprou a licença argentina depois de completar todos os cursos da CBF Academy. Ele nunca tentou homologar o documento argentino na Conmebol.
Volante com passagem pela seleção, Luiz Gustavo não deu entrevista, mas informou por meio da assessoria que acreditou estar contratando uma homologação de carreira, e não um curso. Disse que desconfiou dos documentos ao receber históricos com avaliações que nunca realizou.

O pentacampeão Roberto Carlos disse, via assessoria de imprensa, que negociou com Mancuso, recebeu licenças e carteirinha pelo correio, mas jamais as utilizou porque, segundo ele, “não completou o curso”. Como aconteceu com Pet, o documento de Roberto Carlos está em uma investigação da polícia argentina feita em 2025.
O uruguaio ex-zagueiro e diretor do São Paulo Diego Lugano confirmou, em contato com a reportagem, que adquiriu as licenças com Mancuso através de um “curso rápido” e que teria completado a parte teórica de forma online. “Fiz o teórico pela internet, mas faltou a parte presencial. Eu nunca fui”
Roberto Assis disse ter sido procurado na época da pandemia e não se lembrar se chegou a fazer um depósito a pedido de Mancuso. Sua licença é uma das que foram invetigadas na Argentina.
Via assessoria de imprensa, Thiago Silva falou que pagou uma quantia referente a realização de cursos que não foram ministrados como prometido. Diz que tentou realizar verificação, sem êxito, na ATFA. Mesmo assim, recebeu os certificados no final do ano de 2023, sem nunca ter utilizado.

Afinal, as licenças são reais?
Não. Em comunicado para a reportagem, assinado pelo secretário-geral Salvador Pasini, a ATFA afirma que toda a documentação enviada por Mancuso é falsa: “A ATFA não reconhece qualquer gestão que o Sr. Mancuso tenha realizado ou alegado fazer em nome da entidade. O referido senhor não integra a Diretoria, não ocupa cargo de autoridade na ATFA, não mantém qualquer vínculo contratual com a instituição e não possui autorização para agir em seu nome ou representá-la. Consequentemente, qualquer oferta, cobrança ou envio de documentação que ele possa ter realizado invocando a ATFA é algo totalmente alheio a esta instituição.”
Ao analisar um registro de quem passou pelos processos formais na escola argentina, a documentação enviada por Mancuso tem erros e inconsistências:
Original x cópia autenticada

Um documento original, enviado por uma fonte da escola virtual, mostra registro em cartório reconhecendo a assinatura do responsável pelo documento, no caso da ATFA, o diretor técnico.
As certidões enviadas por Mancuso a que a reportagem teve acesso eram cópias autenticadas, não os documentos originais. Verônica Magaly Macieri, tabeliã que aparece nas licenças analisadas pelo UOL, respondeu que sua atuação limitou-se a certificar a cópia fiel do original que teve em sua presença, sem emitir juízo sobre o conteúdo.
Especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que autenticações desse tipo não validam a autenticidade de certificados nem de assinaturas. As fontes ouvidas pela reportagem também dizem que a ATFA não envia “cópias autenticadas” como documento oficial. A Conmebol também informou que não aceita esse tipo de documentação.
QR code inexistente

Os documentos verdadeiros também possuem um QR code que leva a uma página na ATFA que atesta “certificado analítico verificado”, com todos os dados do aluno, e a escola que o emitiu – a reportagem verificou isso no caso de Thiago Ribeiro, que acabou de receber a licença C da ATFA cumprindo o curso normalmente. Nenhum QR code dos documentos enviados por Mancuso direciona para uma página válida.
“A verdade é que nós, jogadores que pegamos as licenças com o Mancuso, sempre soubemos que esse dia iria chegar. Que alguém descobriria o esquema e daria ruim.”
Fonte procurada pela reportagem e que, perguntado diretamente, admitiu a compra na condição de ser mantido anônimo.
Esse atleta não foi citado em nenhum áudio e não teve documentação exposta. “Parecia algo fácil demais para ser verdade, e eu vi que virou um papo de vestiário. Inúmeros jogadores compraram. Isso me levou a pensar que não daria certo, mas eu jamais desconfiei da possibilidade de ser um documento falso”, completou o jogador, que até o momento em que foi abordado pela reportagem não havia reparado que o QR code não funcionava e que recebeu apenas “cópias autenticadas”.
Datas retroativas
Outro detalhe envolve a inconsistência das datas dos documentos. Muitas das licenças têm data de 2023 e exibem a assinatura de validação de Victorio Cocco, licenciado de forma definitiva da entidade em 2020. Uma licença emitida após esse ano não poderia ter as suas credenciais.
Usando como exemplo o caso de Paulinho: ele procurou o Campus Virtual da ATFA em 2023 para estudar e foi abordado por Mancuso em janeiro de 2024. Após cumprir os trâmites do argentino, recebeu o diploma PRO com a data de dezembro de 2022, assinado por Victorio Cocco, licenciado da ATFA em 2020.
Informações erradas
Além de inconsistências, os documentos também contêm erros. O recebido por Alex de Souza tem um erro no nome do esporte. O documento diz “futsal” quando deveria estar escrito “fútbol”. “Só percebi esse detalhe agora, já que nunca precisei dessa carteirinha”, diz o ex-jogador. Na de Luiz Gustavo, há um erro de grafia no nome do próprio jogador. E uma “sombra” nas assinaturas.
Ausência de documentação na CBF
Os clientes de Mancuso não validaram com a CBF o “ANEXO 9”, uma espécie de visto estudantil para cursos de treinador. É um documento padronizado pela Conmebol para regular a inscrição de alunos em cursos de federações de outros países. Todo aluno precisa dessa autorização de sua federação local para se matricular em uma escola fora de seu país. A reportagem conferiu os nomes citados por Mancuso e nenhum deles cumpriu esse passo.
“Sou apenas um comentarista de rádio”
Em contato com o UOL, Mancuso negou que tenha vendido licenças de treinador. “Muitos brasileiros me ligam. Por quê? Porque eu sou um cara muito conhecido no Brasil, sabe? E eles me perguntam como é que a gente faz, como é que dá um jeito. Eu passo o contato da federação para que eles liguem direto. Eu não estou na federação, eu não sou parte da federação”, disse. Confrontado sobre os áudios em que ele oferece os diplomas pelo valor de US$ 20 mil, ele nega: “Não, isso não existe”.
Dias antes, o ex-volante tinha feito as mesmas ofertas e promessas relatadas nesta matéria a uma fonte que conversou com ele a pedido da reportagem.
Você nunca ofereceu a nenhum jogador?
Não, não existe isso aí. Não existe. Isso aí, toda essa parte financeira aí, eles têm que fechar direto com os caras da federação quando preenchem tudo por correio. Isso aí tem um valor por mês, mensais.
Então os jogadores mentem?
Aí você tem que perguntar para eles. Eu só facilito, se eles me perguntam do jeito que tem que fazer, só isso.
E as fotos que eles te enviaram segurando os diplomas?
Não, não é comigo, é direto na federação.
Você não recebeu depósito de nenhum jogador?
Não, não, não. Nós não recebemos nada por fora, vai tudo com a federação.
Nota da ATFA diz que caso foi investigado e encerrado
“Em nome da Associação de Treinadores de Futebol Argentino (ATFA), respondemos ao seu e-mail e às informações adicionais que nos enviou.
Quanto ao Sr. Alejandro Mancuso, informamos que, embora ele seja um reconhecido ex-jogador da Seleção Argentina e treinador de futebol, a ATFA não reconhece qualquer gestão que o Sr. Mancuso tenha realizado ou alegado fazer em nome da entidade. O referido senhor não integra a Diretoria, não ocupa cargo de autoridade na ATFA, não mantém qualquer vínculo contratual com a instituição e não possui autorização para agir em seu nome ou representá-la. Consequentemente, qualquer oferta, cobrança ou envio de documentação que ele possa ter realizado invocando a ATFA é algo totalmente alheio a esta instituição.
Em relação aos fatos denunciados:
Os fatos descritos em sua mensagem já foram objeto de investigação pela Justiça Federal Criminal e Correcional da República Argentina durante o ano de 2025. No referido processo, investigou-se a suposta emissão irregular de diplomas e licenças de treinador em favor de ex-jogadores de futebol estrangeiros — entre eles, vários dos que você menciona em sua nota —, bem como a eventual participação de autoridades e funcionários da ATFA.
Após a realização de diligências probatórias — incluindo uma busca e apreensão na sede da ATFA, na qual não se encontrou qualquer documentação que comprovasse a emissão de diplomas, históricos escolares ou carteiras profissionais irregulares —, o Ministério Público Fiscal solicitou o arquivamento dos autos. O Juízo Federal Criminal e Correcional responsável pelo caso decidiu, em dezembro de 2025, arquivar o processo por inexistência de crime (art. 195, segundo parágrafo, do Código de Processo Penal da Nação).
Portanto, a questão já foi investigada e resolvida pela Justiça Federal argentina, revestindo-se, para ela e para o direito penal argentino, do caráter de coisa julgada.
Quanto ao número de telefone e à pessoa que se identificou como Pablo Goglino.
O Sr. Pablo Goglino é o Diretor Acadêmico da ATFA, e não gerente ou integrante de qualquer departamento jurídico. A ATFA desconhece totalmente as mensagens que você anexou: o número +54 9 (…) não pertence ao Sr. Goglino, e ele não participou de nenhuma troca de mensagens via WhatsApp com você. De fato, conforme consta nas capturas de tela que você mesma apresentou, ao ser consultado diretamente, o Sr. Goglino afirmou não ter mantido contato com você.
Solicitamos, portanto, que não atribua à ATFA nem aos seus integrantes qualquer comunicação proveniente do referido número. A ATFA reserva-se o direito de iniciar as medidas legais cabíveis pelo uso indevido do nome da instituição e de suas autoridades.
Por fim, solicitamos que, caso publique qualquer matéria sobre este assunto, inclua a presente resposta na íntegra e de forma fiel.
Atenciosamente,
Salvador A. A. Pasini
Secretário-Geral
Associação de Técnicos de Futebol Argentino (ATFA)”










