Do Metrópoles – A médium Maira Rocha, fundadora da Casa da Caridade Inácio Daniel, no Distrito Federal, é acusada por ex-frequentadores de produzir supostas cartas psicografadas a partir de informações disponíveis nas redes sociais e em outras fontes públicas. As denúncias são alvo de investigação da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF).
Os relatos foram reunidos em uma investigação publicada pelo Metrópoles neste domingo (31). Segundo a reportagem, dezenas de pessoas que procuraram a médium após a morte de familiares afirmam ter identificado nas mensagens atribuídas aos parentes falecidos informações anteriormente publicadas no Facebook, Instagram e em outros espaços na internet.
Maira Rocha tem forte presença nas redes sociais e soma mais de 750 mil seguidores no Instagram. Ela dirige a Casa da Caridade Inácio Daniel, localizada na Área de Desenvolvimento Econômico (ADE) de Águas Claras, no Distrito Federal.
De acordo com as denúncias, além de informações disponíveis nas redes sociais, dados encontrados em notícias, boletins de ocorrência e outras fontes abertas teriam sido utilizados na elaboração das mensagens.
Famílias identificaram informações das redes sociais nas cartas
Uma das famílias ouvidas pela reportagem afirmou ter recebido uma suposta mensagem de uma mulher já falecida na qual aparecia uma lembrança sobre ela ensinar aos filhos a oração Salve Rainha usando uma régua. Os parentes descobriram posteriormente que uma recordação praticamente igual estava publicada no Facebook.
A mesma carta apresentava, segundo a família, inconsistências que levantaram suspeitas sobre sua origem. Entre elas estava a menção a uma neta que, de acordo com os parentes, não existia. A hipótese levantada pela família é de que a informação tenha sido obtida a partir de publicações nas redes sociais de uma das noras.
Outro detalhe chamou a atenção dos parentes: a mensagem utilizava para uma irmã da falecida um apelido adotado por ela no Facebook, mas que, segundo a família, nunca era usado pela mulher que teria ditado a carta.
Em outro caso relatado ao jornal, familiares começaram a desconfiar das mensagens depois que uma suposta psicografia afirmou que uma mulher falecida teria acompanhado, em espírito, o casamento do filho. Segundo a família, porém, ela ainda estava viva quando a cerimônia ocorreu.
As cartas também teriam mencionado pessoas inexistentes ou deixado de citar parentes próximos. Uma das famílias afirmou que uma mensagem enviava beijos nominalmente aos netos, mas omitia dois deles e mencionava outro que não existia.
Denúncias envolvem pedido de doação de R$ 300 mil
Entre os episódios relatados está o caso de uma família que afirma ter recebido uma mensagem segundo a qual o espírito de um menino teria determinado a doação de R$ 300 mil para a instituição comandada por Maira. O dinheiro estaria em uma poupança constituída pelos pais para o filho.
A Federação Espírita do Distrito Federal (FEDF), sem mencionar a médium nominalmente, alertou para situações em que pessoas ou instituições condicionam atendimentos espirituais a pagamentos, publicidade ou doações.
Segundo a entidade, pessoas enlutadas podem se tornar especialmente vulneráveis a golpes praticados por indivíduos que utilizam a tecnologia e as redes sociais para explorar a expectativa de estabelecer contato com parentes mortos.
A própria Casa da Caridade Inácio Daniel afirma que as psicografias são gratuitas. Conforme as orientações divulgadas pela instituição, interessados podem colocar o nome do familiar falecido em um livro durante as sessões, mas não há garantia de recebimento de uma mensagem.
Polícia Civil abriu inquérito para investigar o caso
Parte das pessoas que afirma ter sido enganada procurou a Polícia Civil para denunciar a médium. A PCDF confirmou ao Metrópoles que existe um inquérito em andamento na 11ª Delegacia de Polícia, no Núcleo Bandeirante.
Segundo a corporação, a investigação apura fatos que teriam ocorrido em 2019. A ocorrência foi registrada em setembro de 2025, e o inquérito foi instaurado em agosto deste ano. O procedimento citado pela Polícia Civil tem uma vítima.
Além das suspeitas relacionadas às psicografias, pessoas ouvidas pela reportagem acusaram Maira Rocha de reagir judicialmente contra críticos e pessoas que questionam a autenticidade das mensagens. Os relatos incluem registros de boletins de ocorrência e ações nas esferas cível e criminal.
Algumas das denunciantes também afirmaram ter sofrido consequências psicológicas após descobrirem as supostas inconsistências. Uma mulher que havia perdido o marido relatou crises de ansiedade e disse ter se sentido enganada depois de inicialmente acreditar nas mensagens.
Até a publicação da reportagem, Maira Rocha havia sido procurada pelo Metrópoles para comentar as acusações, mas o veículo informou que ainda aguardava retorno.









