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Moradores da zona da mata de Pernambuco reclamam de fumaça por causa de queimadas em canaviais

De acordo com os moradores de Frexeiras, distrito de Escada zona da mata de Pernambuco, a queimada mais recente começou na sexta-feira (17). A queima da palha de cana-de-açúcar está causando impacto ambiental e danos à saúde dos moradores.

Por Ricardo Antunes
21/09/2021 - 08:40
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Do G1 – Moradores do distrito de Frexeiras, em , têm sofrido com as queimas da palha de cana-de-açúcar, principal atividade agrícola de Pernambuco. A cidade da Zona da Mata Sul, que tem 70 mil moradores, é cercada por canaviais e, em época de colheita, fica tomada pela fumaça resultante do uso de fogo pelos produtores. O impacto ambiental do processo também afeta a região. A queimada é realizada nos canaviais antes do corte manual da cana-de-açúcar. Isso é feito para facilitar a colheita, melhorar a segurança do trabalhador e aumentar o rendimento da atividade.

No entanto, esse processo emite uma espécie de fuligem composta por até 95 tipos de partículas finas e ultrafinas, invisíveis a olho nu, além de gases nocivos à atmosfera.

De acordo com os moradores de Frexeiras, a queimada mais recente começou na sexta-feira (17). Imagens enviadas ao WhatsApp da Globo mostram a região tomada pela fumaça, que deixou cinza a paisagem local.

Os vídeos foram feitos pelo comerciante Marcelo Siqueira. Ele disse que essa queimada foi feita pela Usina União e Indústria. Segundo o morador, a situação é a mesma, todos os anos.

“Na região da nossa vila, as pessoas são bastante prejudicadas, principalmente, crianças e pessoas com problemas respiratórios. Minha filha, que tem 3 meses, estava bem e, quando começou a fumaça da queimada, começou a chorar. Fechamos tudo, colocamos ela no quarto, com ar-condicionado, mas ela continuou sofrendo. Vomitou bastante e, só quando acabou a queimada, ela melhorou”, declarou.

A também comerciante Maria Emília Câmara, esposa de Marcelo Siqueira, se preocupa com a saúde da filha. No período junino, o Ministério Público recomendou que os municípios proibissem fogueiras devido à pandemia de Covid-19. No entanto, para a comerciante, as queimadas nos canaviais são ainda piores.

“Minha filha nasceu no período do São João, quando as fogueiras foram proibidas por causa da fumaça durante a pandemia. Por quê, então, não proíbem as queimadas? Não só crianças, mas idosos, pessoas com asma, todo mundo está sofrendo. Estamos cercados por canaviais e aqui as queimadas são muito frequentes”, disse.

Vera Alves, que há 31 anos trabalha como agente comunitária de saúde na cidade, disse que presencia diariamente pessoas com problemas de saúde por causa da fumaça dos canaviais.

“Eu tenho uma filha que precisa usar o inalador e a bombinha direto. Eu também estou passando pelo mesmo problema. Os idosos e acamados acabam tendo receio de ir para o médico e ficam passando mal em casa. Aqui, está terrível”, disse

Segundo o médico Alfredo Leite, pneumologista do Hospital Universitário Oswaldo Cruz (Huoc), a queima de biomassa é bastante danosa tanto para quem tem doenças respiratórias quanto para quem não tem. A exposição prolongada e recorrente à fumaça pode causar, por exemplo, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC).

“Na China, a principal causa de DPOC, como bronquite crônica e enfisema, não é o cigarro, mas a queima de biomassa indoor (ambientes internos), ou seja, forno de lenha. Isso mostra que as pessoas que são expostas durante anos, recorrentemente, podem desenvolver essas doenças como se tivessem fumado ao longo da vida. Isso, claro, é proporcional à disposição, à propensão individual. Nem todo mundo que é exposto vai desenvolver, mas é um risco”, afirmou o médico.

Alfredo Leite também disse que é preciso que o poder público e as empresas adotem práticas para diminuir o impacto das queimadas nas comunidades, mas que, para os moradores, não há muito o que fazer para se proteger.

“Não adianta fechar porta e janela. Essas partículas vão entrar. Ou você queima longe das pessoas ou as pessoas têm que ir para longe. Se as queimadas são feitas quando está todo mundo no trabalho, sempre vai haver em casa e vice versa. Isso precisa ser motivo de estudo”, disse.

Os gases liberados pela queimada da cana-de-açúcar podem causar, entre outros impactos, contaminação de solos e água, chuva ácida e danos à biodiversidade.

No entanto, a produção segue dependente dessa técnica por ser majoritariamente manual. Por isso, fazer o corte com a palha intacta torna a colheita difícil e menos segura para o trabalhador.

De acordo com Mateus Rosas Ribeiro Filho, professor de solos da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), o cultivo de cana-de-açúcar, em si, é benéfico para o solo por ser uma cultura semiperene, que quase não necessita replantio. A queima, no entanto, é extremamente danosa à terra.

“Depois que se faz o corte, a cana rebrota e isso é melhor, porque não precisa estar revolvendo o solo para plantar. Se passa uns cinco anos assim. O problema é que a queima retira matéria orgânica do solo, leva nutrientes embora e, aos poucos, aquele solo vai ficando mais duro, pior para a planta. Há um decréscimo muito grande de carbono”, explicou o professor.

Ainda segundo o professor, uma das alternativas à queima da palha de cana-de-açúcar é a mecanização do corte, mas, em Pernambuco, um impeditivo para isso é a topografia do terreno.

“Sem a queima, o trabalhador não consegue cortar a cana crua. No sistema mecânico, a palhagem é deixada em cima do solo, para proteger. Isso acontece, por exemplo, no plantio de soja, e é muito bom para a terra. As empresas que produzem a cana são até bastante sustentáveis em aproveitar todos os subprodutos, mas o problema, de fato, é a queima”, declarou.

A secretária-executiva de Meio Ambiente de Escada, Piedade Albuquerque, disse que entrou em contato com a Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH) para que sejam tomadas providências sobre a situação.

“Nesse momento, o que a gente tem a dar de satisfação à população é que providenciamos os contatos com os órgãos de responsabilidade e estamos a postos para responder à população de Escada”, afirmou a gestora.

O g1 entrou em contato com a CPRH para saber quais normas regulamentam a queima da palha de cana-de-açúcar no estado e se o que acontece em Frexeiras está de acordo com a legislação.

“A CPRH vai fazer todo o levantamento da área para ver se foi quebrada alguma exigência, se esse fogo foi provocado numa área autorizada ou se o incêndio não foi criminoso. Será feito um levantamento e, identificada a situação, a pessoa pode ser punida com multa. Se ela for detentora de autorização, essa autorização poderá ser suspensa”, afirmou.

Por meio de nota, a agência disse que a autorização para uso de fogo controlado é válida por 90 dias. Muitas vezes, informou a CPRH, algumas usinas precisam fazer mais de uma solicitação, por não conseguirem fazer a colheita inteira no período.

“A Usina União Indústria é detentora de autorização para o uso do fogo controlado. Inclusive, realiza ações com o intuito de coibir os incêndios criminosos”, afirmou a CPRH, na nota.

“Normalmente, são feitas visitas a essas usinas e solicitamos essas autorizações para verificar se elas vão começar a queimar sem estarem autorizadas. Essas visitas também servem para enfatizarmos que elas sigam o que rege a instrução normativa da CPRH, na qual constam todos os procedimentos para autorização e prática do fogo controlado”, disse a gerente da Unidade de Desenvolvimento de Conservação Florestal.

O g1 também solicitou uma entrevista com um porta-voz do Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool de Pernambuco (Sindaçúcar), para saber de que forma as cooperativas e usinas têm tentado diminuir os impactos da produção sucroalcooleira.

A entidade enviou uma nota, em que diz que as usinas do setor sucroenergético em Pernambuco “operam estritamente dentro dos parâmetros da lei” e que “o despalhe programado da cana é feito noturnamente, dentro das normas de controle e segurança exigidos”.

O Sindaçúcar também disse que queimadas de canas e palhas diurnas, quando ocorrem, são acidentes ou incêndios criminosos. Por isso, boletins de ocorrência são abertos pela polícia.

“O despalhe envolvendo queimas controladas ocorre tão somente à noite, das 18h às 4h, quando a umidade relativa do ar é mais elevada, sempre se respeitando as condições dos ventos predominantes na operação”.

Além disso, o sindicato afirmou que as usinas não podem mecanizar o corte devido ao terreno. Também disse que todas as queimadas são feitas a uma distância de, no mínimo, um quilômetro de núcleos urbanos e comunidades tradicionais.

Por fim, o Sindaçúcar disse que a queima é feita observando a direção do vento, umidade do ar, fogo em formato de “L”, com a presença de carros-pipa e distanciamento de moradias e faixas de domínio público (linhas de transmissão, rodovias e ferrovias).

Por meio de nota, a Usina União e Indústria afirmou que “cumpre rigorosamente todas as normas legais de proteção ao meio ambiente, sobretudo quanto à queima controlada, visando diminuir os impactos à população residente nas proximidades”.

A empresa disse, também, que “atua fortemente na prevenção de incêndios criminosos”. Afirmou que “tem sido vítima frequente” de incêndios criminosos e que “está tomando todas as medidas cabíveis junto às autoridades para prevenir e punir os responsáveis”.

Tags: Nordeste
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Ricardo Antunes

Ricardo Antunes

Ricardo Antunes é jornalista, repórter investigativo e editor do Blog do Ricardo Antunes. Tem pós-graduação em Jornalismo político pela UnB (Universidade de Brasília) e na Georgetown University (EUA). Passou pelos principais jornais e revistas do eixo Recife – São Paulo – Brasília e fez consultoria de comunicação para diversas empresas públicas e privadas.

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