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Nacionalista, Enéas Carneiro fez história com bordão e apenas 15 segundos na TV.

Por Ricardo Antunes
21/09/2019 - 16:09
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O Globo

Médico e político, que morreu há 10 anos, candidatou-se 3 vezes à Presidência usando frase ‘Meu nome é Enéas’. Em 2002, torna-se o deputado federal mais votado do país.

Em 1989, em meio à corrida para a primeira eleição direta para presidente da República em 29 anos, o Brasil testemunhou o surgimento de um político que se tornaria uma das figuras mais emblemáticas da cena brasileira.

Dispondo de poucos segundos no horário eleitoral para informar ao eleitor sua plataforma, o candidato do Partido de Reestruturação da Ordem Nacional (Prona), um homem calvo de barba comprida e óculos imensos, ficou conhecido pela frase com a qual encerrava seus rápidos pronunciamentos na TV, de cunho nacionalista e radical: “Meu nome é Enéas!”, dito com uma voz autoritária.

Enéas Ferreira Carneiro, acreano de Rio Branco, nasceu em 5 de novembro de 1938 em uma família humilde. A falta de recursos, entretanto, não impediu que o filho de Mina e Eustáquio José Carneiro desenvolvesse desde cedo o gosto pelos estudos. Extremamente inteligente, sempre foi o primeiro da classe em todas as turmas pelas quais passou. Além disso, gostava de falar em público e tornou-se o orador oficial do Grupo Escolar Vinte e Quatro de Janeiro, onde concluiu o então estudo primário (1ª à 4ª série) e presidiu a caixa escolar, uma espécie de instituição que prestava assistência a alunos carentes.

Ao ficar órfão de pai, aos 9 anos, Enéas passou a ajudar no sustento da casa. Em busca de melhores condições de vida, a família mudou-se para Belém em 1947. Aos 18 anos, Enéas viu na carreira militar a chance de mudar de vida e, tendo isso em mente, prestou o concurso para a Escola de Saúde do Exército, no Rio, sendo aprovado em primeiro lugar. Assim, em 1959, obteve a patente de Terceiro-Sargento Auxiliar de Anestesia e foi trabalhar no Hospital Central do Exército.

Em 1960, Enéas disputou com outros 754 candidatos uma das cinco vagas oferecidas no vestibular da Escola de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro (atual UniRio) e, mais uma vez, passou em primeiro lugar. Formou-se médico em 1965, mas durante os anos em que cursou a faculdade também se dedicou ao curso de Ciências Exatas, com licenciatura em Física e Matemática, na Universidade do Estado da Guanabara (atual Uerj), graduando-se em 1968. Cardiologista, Enéas ingressou no mestrado na UFRJ em 1973 e conquistou o título de mestre três anos mais tarde.

Nesse mesmo ano, escreveu a obra “O eletrocardiograma”, que se tornou referência para a cardiologia brasileira. Em entrevista ao GLOBO, em 2 de dezembro de 1989, Enéas afirmou ter lido 1.200 publicações para escrever o livro.

Durante os anos em que frequentou a universidade, Enéas não se envolveu em atividades políticas, embora nutrisse certa simpatia pelo pensamento marxista e pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB). A ideia de ingressar na vida política nasceu a partir de seu descontentamento com o quadro político-econômico dominante no Brasil em fins dos anos 1980. Recém-saído de um regime militar, o país, que se organizava para suas primeiras eleições diretas após 21 anos de ditadura, ainda vivia em um clima de instabilidade política, além de estar mergulhado em um caos econômico sem precedentes. Frente a isso, Enéas enxergava em si mesmo a solução para os problemas nacionais. Sendo assim, lançou mão de recursos financeiros próprios e, em 1989, fundou o Prona.

O discurso do candidato Enéas Carneiro baseava-se em autoridade e ordem, uma vez que, para ele, a “liberdade desenfreada” era nociva à sociedade e servia apenas para colocar os mais pobres em desvantagem. Era preciso, portanto, um Estado forte e intervencionista, atuante na economia e que promovesse uma distribuição de renda no país. Seu programa de governo previa a defesa do monopólio estatal sobre as riquezas minerais, a implementação de uma reforma tributária e a intervenção do Banco Central no mercado para conter a alta dos juros.

Para além do viés econômico, havia uma crítica contundente à chamada por ele democracia liberal, apontada como responsável pela desordem existente. Enéas queria um Estado que atuasse para promover o fortalecimento de suas instituições, bem como a valorização de uma identidade nacional.

A retórica conservadora de Enéas, que o acompanhou até o fim da vida, trazia similaridades com as ideologias autoritárias da Europa nos anos 1930 (cuja ascensão é um dos motivos que explicam a eclosão da Segunda Guerra Mundial) e, hoje, encontra espaço na fala de líderes ultraconservadores, como a francesa Marine Le Pen, que disputa o segundo turno nas eleições presidenciais na França. O discurso autoritário de Enéas lhe garantiu 360.561 votos, que deram a ele o 12º lugar entre os 22 candidatos que concorreram ao pleito de 1989, vencido por Fernando Collor de Mello. O número pode parecer pequeno, pois representava apenas 0,53% dos votos válidos, mas, na verdade, torna-se expressivo quando leva-se em conta que o candidato dispunha de apenas 15 segundos na propaganda eleitoral na TV e não possuía carreira política. Em entrevista ao GLOBO, publicada em 20 de outubro de 1989, Enéas atribuiu sua derrota à pouca exposição e afirmou que, se tivesse mais tempo, sairia vencedor:

– Eu ganharia no primeiro turno! Esses senhores, os candidatos à Presidência da República, são semi-analfabetos. Eu passaria como um trator por cima deles. São muito ruins! Mal dotados pela natureza (…) Mal preparados. Se houvesse um concurso para presidente, seriam todos reprovados.

Se, por um lado, o bordão “Meu nome é Enéas!” não foi suficiente para fazê-lo subir a rampa do Palácio do Planalto, por outro foi um prato cheio para a publicidade brasileira. A frase tornou-se um fenômeno de marketing e o que se viu foi a sua utilização massiva em toda a sorte de estabelecimentos comerciais, que a parodiavam a fim de divulgarem seus produtos. A agência DM-9, de Nizan Guanaes, uma das maiores do país, usou a frase em uma propaganda de tintura para o cabelo que fez bastante sucesso na época: a tinta “discursava” como se fosse uma candidata política e, no fim, dizia “Meu nome é Biocolor!”.

Enéas disputou mais duas eleições presidenciais: em 1994, obteve o terceiro lugar na votação, superando políticos experientes como Leonel Brizola e Orestes Quércia; em 1998, ficou em quarto lugar na eleição. Em 2000, concorreu à prefeitura de São Paulo e, em 2002, pelo mesmo estado, tornou-se o deputado federal mais votado da história do país, com 1.573.642 votos, recorde ainda não superado.

Reeleito para o cargo em 2006, não chegou a completar o mandato. Morreu em 6 de maio de 2007, no Rio, vitimado por uma leucemia. Flamenguista, fã de Chico Buarque e Tina Turner, Enéas deixou três filhas, de três relacionamentos distintos, uma legião de admiradores de suas ideias nacionalistas e discurso eloquente e, sobretudo, seu nome gravado na história recente do Brasil.

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Ricardo Antunes

Ricardo Antunes

Ricardo Antunes é jornalista, repórter investigativo e editor do Blog do Ricardo Antunes. Tem pós-graduação em Jornalismo político pela UnB (Universidade de Brasília) e na Georgetown University (EUA). Passou pelos principais jornais e revistas do eixo Recife – São Paulo – Brasília e fez consultoria de comunicação para diversas empresas públicas e privadas.

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