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Neymar se achava Deus mas não consultava os oráculos

Por Ricardo Antunes
21/09/2019 - 17:29
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por Ricardo Antunes.

Se o jogador foi mesmo gravado, a sua imagem, que já era ruim, fica ainda pior. Pouco importa se ele é culpado ou inocente. Pouco importa se “estuprou” a moça ou apenas a “agrediu”. Mesmo “status”, se tudo não passou de uma tentativa de “extorsão”.

As coisas não se passam pelo que são, e sim pelo que parecem.

Lembram da mulher de Caio Júlio César, Imperador de Roma? É isso.

Ao contrário também do que Tite disse, o fato não é um “assunto pessoal”. Era visível seu incômodo ao falar do assunto.

Óbvio que o jogador não é uma autoridade, e não exerce cargo público algum.

A rigor, faz o que quiser com o dinheiro que ganha.

Mas ele era o capitão da seleção brasileira, craque de bola, e uma referência para garotos de todo o mundo que amam o futebol.

Dele se espera, pelo menos, um bom exemplo em suas atitudes e comportamentos. Dentro e fora das quatro linhas do gramado.

Engana-se quem acha que não deve tê-los.

E até nos treinamentos, sim senhor.

Não foi delicado levar um “totó” por debaixo das pernas e não ter “fair play”, derrubando o garoto audacioso. Tudo que um famoso faz ganha o mundo, no mundo líquido de Zigmunt Bauman. Até eu e você, pobres mortais, nos é dado o direito de termos nossos “15 segundos de glória”.

George Orwel nunca foi tão atual.

Um apresentador da Band disse que o rapaz era um “garoto”, e é aí que o problema fica maior: Neymar não é mais garoto coisa nenhuma. Deve ir para sua última copa do mundo com quase 30 anos e, com os milhões que ganha por semana, deveria ter uma assessoria competente.

Ou ter, ao menos, amadurecido com seus erros. Não foi a primeira vez que se meteu em confusão. Duvido que seja a última.

É inverossímil que o maior jogador do Brasil tenha um celular que possa ser acessado facilmente por quem ele nunca viu, ou que conheceu recentemente.

O mundo não é bom, e a maldade por vezes mora do seu lado. Nem precisa olhar para trás.

O pai do jogador também tem sua dose de culpa. Trata o mesmo como uma “galinha dos ovos de ouro”, que não pode ser objeto de repreensão e de castigo.

E faz isso há tempos.

Talvez essa falta de educação e seriedade tenha dado sua contribuição para que Neymar se ache o “dono do mundo” e o “Deus”. Nem sei se a ordem não é inversa.

Não é nem uma coisa, nem vai chegar a outra.

A diferença para Messi é abissal.

No campo e fora dele.

E para não carregar esse peso (não é fácil sair do seu estrato social para o cume do Everest) o craque teria que ser tratado como gente grande, e não como um garoto deslumbrado que pode “comer quem quiser”, chegar de helicóptero nos treinos, e pintar o cabelo de louro em plena estréia do Brasil em uma Copa do Mundo.

Não existe mais espaço para esse tipo de coisa que cheira até a amadorismo, misturado com “inocência” pueril. Por qual motivo Tite e a comissão técnica permitiram esse “desbunde”, ninguém ainda foi capaz de entender.

Se algum dos craques que encantaram o mundo em 1982 tivesse essa petulância, Telê Santana o mandaria de volta para casa. Aliás, ele nem entraria em campo.

Se o pai e o filho não estavam preparados para a fama e a vida de luxo e riqueza, deveriam ter contratado um “personal”, uma psicóloga, um bom administrador de empresas, enfim, um quadro de executivos que pudessem gerenciar uma carreira brilhante.

Verdade ou mentira (e já disse aqui o meu palpite), o enredo dessa nova novela do craque afeta sua carreira, e mesmo provando que é inocente, Neymar Jr perde de todo jeito.

Alguns patrocinadores não gostam de associar seu produto a um ente polêmico. Muito menos a quem não tem noção da linha tênue que separa o bom senso do ridículo.

Chegar ao poder, ter fama e muito dinheiro para quem tem um talento fora do normal requer, antes de tudo, maturidade e sabedoria. Seja em que profissão for.

Quem não as tem pode ter bons conselheiros como existiam na Grécia.

Os oráculos dos Deuses desempenhavam esse papel. É sinal de sabedoria saber escutá-los.

Neymar era um garoto que, ao se tornar homem, achou que era Deus. E gosta desse lugar. “Goza” com esse papel que o destino, o talento, e nós da mídia, alimentamos a cada dia. A cada jogada genial.

O craque e a bola no fundo da rede nos redime dos nossos erros. Nos tiram o peso de sermos sempre o “País do Futuro”. Aquele pedaço dos trópicos que nunca vai dar certo. Que vai ficar sempre no quase, como aquela bola na trave que não entrou.

Os próprios amigos que o cercam o tratam assim. Deve ser difícil mesmo separar a amizade da admiração. Ele não deixa de ser o objeto de desejo de milhares de pessoas. “Ah, se eu fosse o Neymar?”, pensaram muitos.

Eu pensava em ser Pelé. Ou talvez Johan Cruyff – o holandês que comandou o carrossel histórico de 1974. Ainda menino, aquela camisa laranja não saía da minha cabeça quando ia dormir, após olhar o jogo na casa do vizinho que já havia comprado uma TV à cores.

Pois bem. Alguém esqueceu que os deuses nada faziam sem consultar seus oráculos?

Sem isso, ele se tornou humano, como todos nós.

E não descobriu que, no verão, é prudente poupar para os dias de inverno.

Eles vão chegar e trazem com eles, os temporais.

Inexoravelmente.

Para os humanos, é claro.

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Ricardo Antunes

Ricardo Antunes

Ricardo Antunes é jornalista, repórter investigativo e editor do Blog do Ricardo Antunes. Tem pós-graduação em Jornalismo político pela UnB (Universidade de Brasília) e na Georgetown University (EUA). Passou pelos principais jornais e revistas do eixo Recife – São Paulo – Brasília e fez consultoria de comunicação para diversas empresas públicas e privadas.

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