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“A mulher, o Tinder e o Sexo Social fácil”, por Jean Menezes de Aguiar

Por Ricardo Antunes
21/09/2019 - 15:44
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Do Observatório Geral

Sem generalizar, obviamente, alguns questionamentos sempre podem ser feitos. Há relatos interessantes sobre novas práticas sociais. Que merecem atenção. Uma delas se trata do Tinder. Um aplicativo para celular que cataloga pessoas num álbum virtual para que outras escolham e vejam se têm ou não interesse.Daí, podem começar o que quiser. Amizade, namoro, batepapo, relação nada-a-ver, amor, casamento eterno, casamento com prazo certo. O que quiserem e quanto quiserem. Pessoas adultas fazem, decididamente, o que achar por bem com suas vidas.

Sem hipocrisias ou moralismos de plantão, o aplicativo é interessante. Mas é apenas um aplicativo, ou seja, uma engenhoca ‘onlinezada’ que tem uma função de ‘juntar’ pessoas. O uso que vão fazer disso, como vão se relacionar é problema de cada um. Nunca um aplicativo pode ter culpa de nada. Não é ele, por exemplo, que estimula vida ‘desregrada’, libertinagem, drogas, sexo irresponsável etc. Esses conceitos pertencem às pessoas, não ao aplicativo.

Há quem fale que agora, com o Tinder, ficou tudo mais fácil com mulheres, e com homens. Dizem, uns, que algumas moças conversam dez minutos por mensagem e já pedem o endereço do sujeito. Vão à casa dele, transam e vão embora. Simples assim. Mal sabendo o nome do parceiro. Quem relata, garante que são meninas de ‘bom nível’, de São Paulo. Alguns chegam ao exagero filosófico de profetizar que de agora em diante as prostitutas ficarão desempregadas, já que a mulherada vem em domicílio. De graça.

Se os relatos ou conclusões parecem ‘horrorosos’, pertencem à sociedade. São ditos sem cerimônia. O xis da questão é que eles não parecem mentirosos.

Contam também que nas manifestações da Copa-2014, na Vila Madalena, SP, os casais que se conheciam ali na rua, conversavam o tempo de um chope e iam para os fundos de algum estacionamento. Transar. Isso mesmo, a céu aberto, sem problema. Depois, era só jogar a camisinha fora e continuar a festa. Até o próximo sexo-encontro. Já com outra parceira.

Há similaridades no reino animal. O biólogo Frans de Waal (A era da empatia, p. 66) fala dos animais que se relacionam desconhecendo a ligação entre sexo e reprodução, sentindo atração e ‘efeitos prazerosos’. Relata também dos lindos golfinhos solteiros machos que se interessam mais pelas pesquisadoras mulheres (p. 180). Conclui que a empatia não depende de uma decisão, mas é instinto (p. 100). É claro que primatas superiores, nós, temos o maravilhoso livre arbítrio. Mas na sociedade atual parece que a empatia e o prazer momentâneo e autoexaurível estão mandando mais.

Vê-se que a lógica do sexo social fácil existe não só entre humanos. No mundo animal também há o prazer. Mas com os humanos ainda se agrega mais um fator: a carência afetiva.

O sexo social fácil não seria nada demais se os humanos não moralizassem os seus atos. Assim, há culturas, conceitos, padrões de aceitação, inaceitação e até preconceitos.

Sem julgar quem opta pelo sexo social fácil, com a lógica do prazer-em-si, se a coisa chegou mesmo a este ponto, precisam mudar os conceitos e as moralizações.

Querer ‘xingar’ os adeptos do sexo social fácil é primarismo. Dizê-los imorais, indecentes, promíscuos, não resolve. Invocar algum deus ou livro sagrado, é argumento de autoridade, só satisfaz a moralistas de plantão. Se a prática do sexo social fácil estiver mesmo chegando não serão discursos autoritários que ‘consertarão’ nada. Muito menos darão compreensão à coisa. E mais, elementos culturas não são ‘consertáveis’. Existem.

Não há catastrofismo aí. Duas passagens do antropólogo Clifford Geertz (Nova luz sobre a antropologia, p. 31) são cruciais. ‘Os humanistas protestam que os cientistas sociais barbarizam o mundo.’ Mas a leitura do cientista social apenas revela a barbaria. Não é ele que ‘cria’ a barbaria. No caso do sexo social fácil, se isto tiver se tornando uma realidade, ele existe, está lá.

A segunda passagem de Geertz é sobre o moralismo hipócrita. ‘Discutir a própria visão moral em público é sempre um convite à hipocrisia e, o que é pior, à concepção de que há algo de particularmente nobre em se ter sido refinado o bastante por simplesmente tê-la tido.’ Perfeito, magistral.

De novo, não se trata de ‘julgar’ opções adultas. Mas observar buscando confirmações. Será que a sociedade vem evoluindo no sentido do sexo social fácil, não comprado? Será que em festas e aglomerações de rua haverá gente transando nos cantos como uma orgia ‘amorosa’ em que somente o prazer instantâneo valha?

O que estará em jogo com tudo isso será uma moral machista. Uma que sempre liberou o homem para o ‘comer’, mas nunca libera a mulher para o ‘dar’. Há aí uma assimetria crítica. Não se tem o comer sem que se tenha o dar. Mas há outra, paradoxal. O mesmo homem que se beneficia pelo comer xinga a mulher pelo dar, afinal a moral sempre foi machista.

A cientista social Paula Sandrine Machado, no livro ‘Entre saias justas e jogos de cintura’, p. 166, confirma que do comportamento sexual passa-se a dar mais importância às ‘regras culturais que o organizam’ do que às práticas em si. São os ‘significados atribuídos’ sendo mais importantes do que o comportamento em si. A crítica de Paula, apoiada em autores estrangeiros é perfeita.

Numa sociedade humana sempre haverá mais preocupação com a norma posta do que com a prática em si. Mesmo que a prática seja ‘inofensiva’ ao outro, ou totalmente particular e íntima. Já na sociedade conservadora isso alcança cenários caóticos.

Talvez, disso tudo, coubesse a pergunta: o que a mulher fará da sociedade? Não estranhe. Se tudo se resume a ela, em termos de preocupação moralista, a faca e o queijo estão em suas mãos. Mas uma análise não comporta o sistema de fatias. O sexo social fácil está sendo construído lentamente e o moralismo anda em cólicas. A culpa não é da antropologia que apenas lê fatos sociais. A sexualidade não trabalha com conceito de ‘culpado’. Talvez nem com conceitos, mas só com a prática em si.

observatoriogeral.com

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Ricardo Antunes

Ricardo Antunes

Ricardo Antunes é jornalista, repórter investigativo e editor do Blog do Ricardo Antunes. Tem pós-graduação em Jornalismo político pela UnB (Universidade de Brasília) e na Georgetown University (EUA). Passou pelos principais jornais e revistas do eixo Recife – São Paulo – Brasília e fez consultoria de comunicação para diversas empresas públicas e privadas.

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