Do TAB UOL – Os ventos que sopram forte no Nordeste impulsionaram a instalação de empresas estrangeiras de energia eólica no Brasil.
Hoje, 79% dos parques eólicos instalados no Nordeste têm capital exclusivamente estrangeiro ou misto, mostra levantamento inédito obtido pelo UOL.
A região concentra cerca de 95% da produção de energia gerada pelos ventos no país. Dos 1.076 parques instalados ou em fase de construção até dezembro de 2025:
- 597 têm capital exclusivamente estrangeiro (18,6 GW da capacidade instalada);
- 270 são de capital brasileiro (6,9 GW);
- 209 têm capital misto (8,2 GW).
Os números integram pesquisa da pesquisadora Monalisa Lustosa, que é doutoranda em geografia na Unesp (Universidade Estadual Paulista).
Os dados farão parte da tese dela, que trará um mapa interativo com detalhes sobre os parques eólicos e solares do Nordeste.
Entre 2015 e 2024, o setor eólico brasileiro recebeu US$ 42 bilhões em investimentos, segundo a Abeeólica (Associação Brasileira de Energia Eólica).
A maior parte dos empreendimentos está concentrada em pouco mais de dez grandes grupos empresariais, com destaque para companhias da França, China, Itália e Noruega.
A França lidera a presença no país, com 156 parques eólicos, sendo 102 operados pela Engie, multinacional do setor de energia de baixo carbono.
No Brasil, a empresa reportou receita líquida de R$ 3,3 bilhões no terceiro trimestre de 2025 —um crescimento de 31,8% em relação ao mesmo período de 2024.
Segundo a pesquisadora, os dados indicam um alto grau de internacionalização do setor eólico brasileiro, sobretudo no Nordeste.

Ela ressalta que, embora essa participação não seja ilegal, há debate sobre os efeitos do modelo no desenvolvimento local, na qualidade de vida de comunidades vizinhas às usinas e na retenção de parte dos lucros no país, em um setor considerado estratégico para o país.
Essas corporações –algumas estatais– estão em uma corrida geopolítica pelo controle da cadeia, desde a mineração de minerais críticos, como lítio e terras raras, até a fabricação de componentes e a criação de patentes. O Brasil tem o recurso natural, mas todo o resto é estrangeiro.
Monalisa Lustosa – pesquisadora.
Já a presidente da Abeeólica, Elbia Gannoum, afirma que a presença de capital internacional é comum em projetos de infraestrutura e que o setor conta com diversas parcerias entre empresas brasileiras e estrangeiras.
“De cinco anos para cá, vimos muitas parcerias com empresas chinesas. Mas também há muitas empresas brasileiras operando há anos, muitas com capital misto, o que é normal”, diz.
Elbia explica que investidores estrangeiros se interessam pelo Brasil porque o país é um dos mais atrativos do mundo para energia renovável. “Temos infraestrutura e os melhores ventos do mundo, que estão no Nordeste”, completa.
A presença de capital estrangeiro no setor é questionada pelo MPF na Paraíba, que aponta irregularidades na atuação de empresas.
Segundo o órgão, a Aneel “vem dispensando indevidamente a apresentação de documento comprobatório de posse ou propriedade regular da terra, bem como do cumprimento dos requisitos específicos para ocupação por estrangeiros”.
A Aneel fragilizou o controle e acompanhamento da ocupação das áreas utilizadas para instalação de projetos, entende o MPF.

Pela lei, empresas estrangeiras ou com ao menos 50% de capital estrangeiro precisam de autorização do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) para arrendar ou comprar áreas de até cem módulos rurais —um módulo varia de 5 a 110 hectares, a depender do município.
Acima desse limite, é exigida também autorização prévia do Congresso.
“Sem essas autorizações, os contratos não têm validade legal”, diz recomendação do MPF à Aneel e ao Incra, emitida no último dia 8, que pede uma análise em 30 dias para decretação de nulidade dos contratos que descumprem a lei.
“Simplesmente a Aneel concede o direito a uma exploração de energia e não verifica as condições legais. E isso ocorre em larga escala, é surreal: a maioria dessas empresas está atuando de forma ilegal no Brasil”, afirma o procurador da República José Godoy.
Em nota ao UOL, a Aneel afirma que está avaliando a manifestação do MPF e que só depois se pronunciará. Já o Incra diz apenas que “cada caso é analisado individualmente, obedecendo prazos e normas legais”.
Ambiente ideal para investidores globais
Especialistas apontam que a atratividade da região está associada a um conjunto de fatores naturais, econômicos e regulatórios.
A região possui ventos fortes, constantes e previsíveis ao longo do ano, o que resulta em elevado fator de capacidade das usinas.
O setor conta com regras estáveis e leilões regulares de energia, que garantem contratos de longo prazo.
Há ainda incentivos fiscais, como isenções tributárias para aquisição de equipamentos e possibilidade de importação de componentes não fabricados no país com tarifa reduzida ou zero.
Outro elemento citado é a disponibilidade de áreas extensas e o custo relativamente baixo da terra em comparação a outras regiões do mundo.
O licenciamento ambiental para projetos eólicos no Brasil também é considerado mais simplificado do que em países europeus, o que reduz o tempo de implantação dos empreendimentos.

Para Edmar Almeida, professor e pesquisador do Instituto de Energia da PUC-Rio e presidente da IAEE (Associação Internacional de Economia da Energia), a combinação entre qualidade do vento e estabilidade do mercado ajuda a explicar o interesse de empresas internacionais.
“O fator de capacidade médio das eólicas no Brasil é significativamente maior que o da Europa”, afirma.
Ele acrescenta que empresas estrangeiras costumam ter acesso a financiamentos em condições mais favoráveis, o que influencia sua participação na produção do setor, que hoje ocupa o segundo lugar na matriz elétrica nacional —16%, atrás das hidrelétricas, com 61%.
Apesar desse cenário favorável, a cadeia eólica enfrenta uma fase de desaceleração.
A instalação de novas usinas caiu em 2024, em relação ao ano anterior, refletindo um ambiente de sobreoferta, baixo crescimento da demanda e gargalos na transmissão.
O setor de energias renováveis (eólica e solar) prevê nova queda nas instalações em 2026, marcando o segundo ano consecutivo de retração.
Reportagem da Reuters aponta que projetos vêm sendo adiados ou cancelados diante de dificuldades de conexão ao sistema elétrico e dos impactos financeiros causados pelos cortes obrigatórios de geração.
Autorizações para cerca de 13 GW em novos projetos foram revogadas pela Aneel em 2025, envolvendo empresas como Shell, Enel e Engie Brasil, aponta a agência de notícias.

Para a energia eólica, a expectativa é de entrada de apenas 1,26 GW em 2026, patamar bem inferior ao observado nos anos de expansão do setor.
Outro fator de pressão tem sido o chamado “curtailment”, quando usinas são obrigadas a reduzir a geração para evitar sobrecargas no sistema.
A associação Abrace estima que as perdas acumuladas com esses cortes, entre 2023 e 2025, possam chegar a R$ 7 bilhões, com potencial impacto nas tarifas de energia e na inflação.
Somente em 2025, os cortes médios atingiram 15% da geração eólica e 25% da solar.
Mesmo com os desafios, especialistas avaliam que o Brasil continua como um dos mercados mais atrativos do mundo para energias renováveis.











