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Saiba quais são as empresas estrangeiras que lideram a energia eólica no Nordeste

Por Redação
17/01/2026 - 19:00
Nordeste lidera produção de Energia Eólica

Nordeste lidera produção de Energia Eólica

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Do TAB UOL – Os ventos que sopram forte no Nordeste impulsionaram a instalação de empresas estrangeiras de energia eólica no Brasil.

Hoje, 79% dos parques eólicos instalados no Nordeste têm capital exclusivamente estrangeiro ou misto, mostra levantamento inédito obtido pelo UOL.

A região concentra cerca de 95% da produção de energia gerada pelos ventos no país. Dos 1.076 parques instalados ou em fase de construção até dezembro de 2025:

  • 597 têm capital exclusivamente estrangeiro (18,6 GW da capacidade instalada);
  • 270 são de capital brasileiro (6,9 GW);
  • 209 têm capital misto (8,2 GW).

Os números integram pesquisa da pesquisadora Monalisa Lustosa, que é doutoranda em geografia na Unesp (Universidade Estadual Paulista).

Os dados farão parte da tese dela, que trará um mapa interativo com detalhes sobre os parques eólicos e solares do Nordeste.

Entre 2015 e 2024, o setor eólico brasileiro recebeu US$ 42 bilhões em investimentos, segundo a Abeeólica (Associação Brasileira de Energia Eólica).

A maior parte dos empreendimentos está concentrada em pouco mais de dez grandes grupos empresariais, com destaque para companhias da França, China, Itália e Noruega.

A França lidera a presença no país, com 156 parques eólicos, sendo 102 operados pela Engie, multinacional do setor de energia de baixo carbono.

No Brasil, a empresa reportou receita líquida de R$ 3,3 bilhões no terceiro trimestre de 2025 —um crescimento de 31,8% em relação ao mesmo período de 2024.

Segundo a pesquisadora, os dados indicam um alto grau de internacionalização do setor eólico brasileiro, sobretudo no Nordeste.

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Ela ressalta que, embora essa participação não seja ilegal, há debate sobre os efeitos do modelo no desenvolvimento local, na qualidade de vida de comunidades vizinhas às usinas e na retenção de parte dos lucros no país, em um setor considerado estratégico para o país.

Essas corporações –algumas estatais– estão em uma corrida geopolítica pelo controle da cadeia, desde a mineração de minerais críticos, como lítio e terras raras, até a fabricação de componentes e a criação de patentes. O Brasil tem o recurso natural, mas todo o resto é estrangeiro.
Monalisa Lustosa – pesquisadora.

Já a presidente da Abeeólica, Elbia Gannoum, afirma que a presença de capital internacional é comum em projetos de infraestrutura e que o setor conta com diversas parcerias entre empresas brasileiras e estrangeiras.

“De cinco anos para cá, vimos muitas parcerias com empresas chinesas. Mas também há muitas empresas brasileiras operando há anos, muitas com capital misto, o que é normal”, diz.

Elbia explica que investidores estrangeiros se interessam pelo Brasil porque o país é um dos mais atrativos do mundo para energia renovável. “Temos infraestrutura e os melhores ventos do mundo, que estão no Nordeste”, completa.

A presença de capital estrangeiro no setor é questionada pelo MPF na Paraíba, que aponta irregularidades na atuação de empresas.

Segundo o órgão, a Aneel “vem dispensando indevidamente a apresentação de documento comprobatório de posse ou propriedade regular da terra, bem como do cumprimento dos requisitos específicos para ocupação por estrangeiros”.

A Aneel fragilizou o controle e acompanhamento da ocupação das áreas utilizadas para instalação de projetos, entende o MPF.

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Pela lei, empresas estrangeiras ou com ao menos 50% de capital estrangeiro precisam de autorização do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) para arrendar ou comprar áreas de até cem módulos rurais —um módulo varia de 5 a 110 hectares, a depender do município.

Acima desse limite, é exigida também autorização prévia do Congresso.

“Sem essas autorizações, os contratos não têm validade legal”, diz recomendação do MPF à Aneel e ao Incra, emitida no último dia 8, que pede uma análise em 30 dias para decretação de nulidade dos contratos que descumprem a lei.

“Simplesmente a Aneel concede o direito a uma exploração de energia e não verifica as condições legais. E isso ocorre em larga escala, é surreal: a maioria dessas empresas está atuando de forma ilegal no Brasil”, afirma o procurador da República José Godoy.

Em nota ao UOL, a Aneel afirma que está avaliando a manifestação do MPF e que só depois se pronunciará. Já o Incra diz apenas que “cada caso é analisado individualmente, obedecendo prazos e normas legais”.

Ambiente ideal para investidores globais
Especialistas apontam que a atratividade da região está associada a um conjunto de fatores naturais, econômicos e regulatórios.

A região possui ventos fortes, constantes e previsíveis ao longo do ano, o que resulta em elevado fator de capacidade das usinas.

O setor conta com regras estáveis e leilões regulares de energia, que garantem contratos de longo prazo.

Há ainda incentivos fiscais, como isenções tributárias para aquisição de equipamentos e possibilidade de importação de componentes não fabricados no país com tarifa reduzida ou zero.

Outro elemento citado é a disponibilidade de áreas extensas e o custo relativamente baixo da terra em comparação a outras regiões do mundo.

O licenciamento ambiental para projetos eólicos no Brasil também é considerado mais simplificado do que em países europeus, o que reduz o tempo de implantação dos empreendimentos.

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Para Edmar Almeida, professor e pesquisador do Instituto de Energia da PUC-Rio e presidente da IAEE (Associação Internacional de Economia da Energia), a combinação entre qualidade do vento e estabilidade do mercado ajuda a explicar o interesse de empresas internacionais.

“O fator de capacidade médio das eólicas no Brasil é significativamente maior que o da Europa”, afirma.

Ele acrescenta que empresas estrangeiras costumam ter acesso a financiamentos em condições mais favoráveis, o que influencia sua participação na produção do setor, que hoje ocupa o segundo lugar na matriz elétrica nacional —16%, atrás das hidrelétricas, com 61%.

Apesar desse cenário favorável, a cadeia eólica enfrenta uma fase de desaceleração.

A instalação de novas usinas caiu em 2024, em relação ao ano anterior, refletindo um ambiente de sobreoferta, baixo crescimento da demanda e gargalos na transmissão.

O setor de energias renováveis (eólica e solar) prevê nova queda nas instalações em 2026, marcando o segundo ano consecutivo de retração.

Reportagem da Reuters aponta que projetos vêm sendo adiados ou cancelados diante de dificuldades de conexão ao sistema elétrico e dos impactos financeiros causados pelos cortes obrigatórios de geração.

Autorizações para cerca de 13 GW em novos projetos foram revogadas pela Aneel em 2025, envolvendo empresas como Shell, Enel e Engie Brasil, aponta a agência de notícias.

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Para a energia eólica, a expectativa é de entrada de apenas 1,26 GW em 2026, patamar bem inferior ao observado nos anos de expansão do setor.

Outro fator de pressão tem sido o chamado “curtailment”, quando usinas são obrigadas a reduzir a geração para evitar sobrecargas no sistema.

A associação Abrace estima que as perdas acumuladas com esses cortes, entre 2023 e 2025, possam chegar a R$ 7 bilhões, com potencial impacto nas tarifas de energia e na inflação.

Somente em 2025, os cortes médios atingiram 15% da geração eólica e 25% da solar.

Mesmo com os desafios, especialistas avaliam que o Brasil continua como um dos mercados mais atrativos do mundo para energias renováveis.

Tags: Nordeste
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