Do UOL – A praia de Ponta Negra, em Natal, perdeu quase 400 mil m³ de areia (cerca de 600 mil toneladas) entre fevereiro de 2025 e fevereiro de 2026. O dado chama a atenção porque o local passou por obras de alargamento no segundo semestre de 2024, que custaram R$ 100 milhões e são alvo de ação civil pública do MPF (Ministério Público Federal) que denunciou uso de tubulações falsas.
O volume de areia perdido representa 39,3% do total de sedimentos colocados pela obra. Desde a conclusão da intervenção, que depositou 1 milhão de m³ de areia ao longo de 4,6 km de praia, a faixa de areia registra alagamentos em dias de chuva e de marés altas. A Prefeitura de Natal relativizou as conclusões do estudo.
A análise da perda de areia foi realizada por pesquisadores da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) e da Funpec (Fundação Norte-Rio-Grandense de Pesquisa e Cultura). O estudo é assinado pelos pesquisadores Carlos Wilmer Costa, Caio Victor Macedo Pereira e Joyce Clara Vieira Ferreira.
Achados
O estudo dividiu a orla em três setores para medição.
- No morro do Careca, cartão-postal da cidade, a perda foi a maior em termos proporcionais: 111 mil m³ de areia foram perdidos, o equivalente a 51,9% do volume depositado no setor.
- O trecho da via Costeira teve redução de 207 mil m³, o que corresponde a 49,8% do volume de areia colocado no local.
- Já a região central da Ponta Negra registrou diminuição de 82 mil m³, correspondente a 21,2%.
Outro ponto ressaltado no relatório é que, em partes da praia, os indicadores de ganho total de areia por causa da obra podem estar acima do real devido à mudança no método de marcação da linha de costa entre os dois anos.

Causas da perda de sedimentos
O estudo indica que problemas no escoamento da drenagem urbana são a principal causa da retirada de sedimentos. Em períodos de chuva, diz o documento, o fluxo de água supera a capacidade dos dissipadores e cria lagoas na areia. A análise cita que quatro eventos de rompimento do aterro ocorreram no período, com a abertura de voçorocas (crateras de erosão).
A geometria do aterro criado (que equivale à área alargada) também causa retenção de água, já que a frente da praia possui altura superior à da parte mais afastada do mar. Esse formato, dizem os pesquisadores, impede que a água da chuva ou das marés retorne ao mar, gerando alagamentos e infiltração.
O documento registra ainda erosão interna do tipo “piping”. Esse processo ocorre pela entrada de água no aterro através de infiltração subterrânea proveniente de chuvas, piscinas, ligações ou vazamentos da rede. Essa infiltração retira sedimentos por baixo da superfície e causa o colapso da areia. No morro do Careca, o fenômeno é mais intenso porque a energia das ondas se concentra na base da rocha e remove os sedimentos.
Destino da areia e recomendações
O estudo aponta que a areia retirada se desloca para o centro e para o norte da praia. Parte do material do morro do Careca, no extremo sul da praia, segue para a região central.
Outro volume é transportado para a zona submersa (antepraia) em razão do ajuste natural do perfil da praia, que tende a se tornar mais plano com o tempo.O relatório apresenta recomendações para a conservação da faixa de areia. As medidas incluem a execução de reaterro e o controle do escoamento de água proveniente do bairro.
O texto também orienta a construção de lagoas de captação e infiltração para reduzir o volume de água que chega à praia, além do redimensionamento dos dissipadores de drenagem.O que diz a Prefeitura
Em nota, a Prefeitura de Natal, responsável pela obra, alega que o relatório não afirma ter havido perda definitiva de 40% do aterro. “A análise realizada refere-se exclusivamente à faixa da praia e, ainda assim, em uma redução associada à dinâmica natural de transporte e redistribuição de sedimentos ao longo da orla, sem representar a saída desse material do sistema costeiro.”
Conforme destacado no próprio relatório técnico, é prematuro determinar com precisão origem, transporte e destino dos sedimentos, o que demandará estudos técnicos complementares. Ressaltamos, por fim, ser fundamental uma avaliação criteriosa sobre dados tecnicamente tão rigorosos, a fim de evitar conclusões precipitadas, inconsistentes ou entendimentos distorcidos sobre o andamento do projeto.














