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A Revolução Pernambucana e a tradição de luta do povo brasileiro

Por Redação
04/03/2024 - 08:00
Bênção das bandeiras da Revolução de 1817, óleo sobre tela de Antônio Parreiras.

Bênção das bandeiras da Revolução de 1817, óleo sobre tela de Antônio Parreiras.

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Por Thiago Modenesi — Desde o Império nosso país começou a viver um conjunto de sublevações que questionavam as forças dominantes e nuances do poder estabelecido, faz parte da nossa História, os brasileiros são um povo de luta, carregado de indignação e inconformismo, e a Revolução Pernambucana foi um importante marco, já que se tornou a primeira revolta a sair do papel, da fase conspiratória contra o Império, antes da proclamação da nossa independência, diferente da Inconfidência Mineira e da Conjuração Baiana.

Na soma da seca profunda com o aumento de impostos que a coroa portuguesa fazia para custear os luxos da família real, algo que vinha desde sua transferência para as nossas terras em 1808, criou-se a tempestade perfeita para dar materialidade ao já famoso espírito de revolta das elites pernambucanas. Já registravam nas suas lutas a expulsão dos holandeses (1654) e a Guerra dos Mascates (1710), em que se aventou a proclamação da independência da cidade de Olinda.

A revolta separatista acontece em 1817, abarcando Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte, até tenta ganhar o apoio da Bahia, mas o padre emissário enviado nessa missão é fuzilado assim que chega à capital daquela província.

Os revolucionários tomam o poder e o mantém por 75 dias, servindo para ali estabelecer alicerces importantes no questionamento ao governo central e alimentar o processo que levaria a nossa independência mais adiante, bem como para dar alcance as ideias iluministas e liberais que chegavam da Europa. Essas já circulavam por aqui, mas apenas entre maçons e intelectuais, com a revolta de Pernambuco chegam a mais setores da sociedade.

Vitral de Henry Moser, no Palácio do Campos da Princesas

Cabe destaque a tentativa do novo governo em estabelecer uma estrutura democrática, com um colegiado provisório, liberdade de imprensa (algo impensável para a época), convocação de uma assembleia constituinte ainda na segunda metade do primeiro mês a frente do poder, a separação dos três poderes, abolição de impostos sobre o comércio, mas manteve a escravidão.

Apesar de possuir apoio popular, se tratava de uma revolta capitaneada pelas elites, que não vislumbravam que para romper efetivamente com Portugal e proclamar uma República era fundamental abolir a escravatura no Brasil, como a História provou, tal fato virá a ocorrer tardiamente, já que fomos o último país das Américas a fazê-lo.

A Revolução Pernambucana defendeu a instalação de um governo de tipo republicano, como o que havia se estabelecido nos Estados Unidos, e posteriormente acabaria por ocorrer por todo continente.

O novo governo também manteve o catolicismo como religião oficial, visto o amplo apoio que tinha de setores da igreja local, tanto que a Revolução Pernambucana também é conhecida como “Revolta dos Padres”. O Padre Miguelinho, Frei Caneca e o Vigário Tenório foram responsáveis inclusive pelo trabalho administrativo do novo governo.

Monumento de Abelardo da Hora, inaugurado em 1994

Além de tudo isso, a Revolução Pernambucana deu aumento ao soldo dos soldados e criou uma nova bandeira, que viria a ser retomada por Pernambuco em 1917 e mantida até hoje, nela se fazem presentes as cores azul, branca, vermelha e amarela, com uma estrela encima e um sol abaixo, esse representa a união dos pernambucanos, já no interior temos a cruz, que simboliza a fé na justiça.

A falta da ampliação do apoio, sem a adesão de mais províncias, a forte reação das tropas portuguesas com um cerco de oito mil homens, o bloqueio do porto do Recife e outras nuances mais, em que a batalha decisiva se deu em Ipojuca, as tropas portuguesas entram em Recife em 19 de maio e o governo provisório se rende no dia seguinte.

A coroa pune duramente os revoltosos, com enforcamento, decepação de cabeças de seus principais líderes, separação das províncias de Alagoas e Pernambuco, valorizando a fidelidade dos proprietários de terra alagoanos a coroa.

Anos mais tarde veríamos a conquista da nossa independência de Portugal, mas não do fim da monarquia, mesmo as ideias liberais e iluministas estando intrinsicamente ligadas à ideia de uma República.

Em 1822 formou-se um governo monárquico, graças aos interesses das elites do período e a tentativa de manter a escravidão (como aqui dissemos) a economia de tipo agrário e o latifúndio. Muita luta pela frente até a construção da República, que só se fará possível com o fim da escravidão e com mais dezenas de revoltas que vão fortalecendo esse ideário e ajudando a construir o Brasil que temos hoje.

_________________________

*Thiago Modenesi é doutor em Educação, historiador, pedagogo e Professor da UFPE.

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