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“Fidel Castro não será absolvido pela história”, diz o escritor Mário Vargas Llosa

Por Ricardo Antunes
21/09/2019 - 16:01
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Por Silvia Colombo

Havia muita expectativa no ar, poucas horas antes da abertura oficial da Feira Internacional do Livro de Guadalajara, de que o Nobel peruano Mario Vargas Llosa, 80, comentasse a morte de Fidel Castro. Mas o autor se esquivou do assunto. Disse, sim, a meios locais e ao jornal “El País”, esperar que uma etapa democrática e de esclarecimento dos fatos ocorridos desde a Revolução de 1959 de fato agora ocorram, e concluiu achando que “Fidel não será absolvido pela história”.

Isso, no entanto, foi tudo. Ao iniciar sua fala oficial para um auditório lotado, o que fez mesmo foi mergulhar na literatura latino-americana. Porém, foi inequívoca a presença de Fidel nas entrelinhas de seu discurso. Por exemplo, quando mencionou os primórdios da literatura latino-americana, quando a Inquisição não deixava que livros chegassem às Américas, ou quando mencionou o horror que governos ditatoriais locais tinham dos escritores e da literatura. Foi como fazer uma alusão clara aos tantos autores dissidentes e excluídos do regime castrista, de um modo geral, e reforçar que seu sofrimento não será esquecido.

“Os inquisidores tinham medo da literatura e tinham razão para ter medo, as ditaduras estabeleciam vigilância à produção intelectual e tinham razão para isso. Romances, com suas metáforas e sua capacidade de abrir portas à imaginação do cidadão, de mostrar-lhe que existem outros mundos diferentes de sua realidade, do ponto de vista desses Estados era obviamente perigosíssimo.” E acrescentou. “Uma novela pode mostrar-nos que se pode pensar em viver num mundo melhor do que o que temos, e quando saímos dela e voltamos para a nossa realidade, vem a insatisfação. E muitas vezes a insatisfação vira revolta.”

A parte mais política da palestra parou por aí. Depois veio um debate sobre o que foi o “boom” latino-americano, agora que, como ele brinca, as pessoas se acostumaram a dizer que Vargas Llosa é o “único remanescente do ´boom´”.

“Mas eu não sei quem foi o ´boom´,” afirmou, provocando risos. “Alguns dizem que foram quatro autores, outros que foram dez. Não existe uma contagem. Também nunca existiu uma unidade de gênero, havia fantasia, havia realismo, havia realismo com fantasia. Nem mesmo tínhamos uma igualdade das idades, no tal ´boom´ tinha gente muito mais velha, gente muito mais nova. Mas o fato é que se transformou numa marca. E o que trouxe de bom foi transformar a literatura latino-americana num gênero para os europeus.”

Vargas Llosa reivindicou, então, a literatura que veio antes disso, e atacou os críticos que apenas viam os que vieram depois do “boom” como valiosos. “Como encaixar um Euclydes da Cunha e um José Enrique Rodó entre os principais autores da América Latina se eles não fizeram parte do ´boom´?”.

Entre as coisas positivas que vê na literatura latino-americana contemporânea está um maior intercâmbio entre autores. “Quanto eu era jovem, não sabia nada de literatura que não fosse a do Peru, não sabia o que se escrevia na Colômbia, no Brasil, as fronteiras eram muito fechadas.” E lembrou que o grande encontro das literaturas latino-americanas se daria apenas algumas décadas depois, quando Barcelona se transformou numa capital editorial dos autores de língua hispana, “foi aí que me descobri como um escritor latino-americano.”

Nostálgico, o peruano rendeu algumas homenagens. A principal, inclusive, a alguém que foi seu desafeto pessoal, Gabriel García Márquez. Contou que, ao ler “Ninguém Escreve ao Coronel” considerou estar diante de uma obra-prima e que o teria mostrado, quando a lera, a riqueza e a maestria de seu autor. Também elogiou Borges, e contou anedotas de uma visita sua a Paris, nos anos 1960, em que o argentino “com um francês arcaico, tirado dos livros e não da coloquialidade, impressionou acadêmicos, a imprensa, a todos”. Por fim, homenageou também Julio Cortázar, contando sobre ele uma anedota. “Nós vivíamos sem dinheiro em Paris, quando eu consegui algo pago, fiquei super feliz, depois descobri que Cortázar e a mulher viviam recusando os empregos. Eu achava que eles estavam completamente loucos, como queriam manter-se ali sem dinheiro? E eles apenas me respondiam: ´Assim nós temos mais tempo para ler e escrever´.”

A jornalista viajou a convite da organização da Feira do Livro de Guadalajara

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Ricardo Antunes

Ricardo Antunes

Ricardo Antunes é jornalista, repórter investigativo e editor do Blog do Ricardo Antunes. Tem pós-graduação em Jornalismo político pela UnB (Universidade de Brasília) e na Georgetown University (EUA). Passou pelos principais jornais e revistas do eixo Recife – São Paulo – Brasília e fez consultoria de comunicação para diversas empresas públicas e privadas.

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