Por André Beltrão – A Associação Brasileira das Indústrias de Pescado (Abipesca), em diversos posts em sua página do Instagram, sempre afirmou publicamente ter como missão defender a indústria brasileira de pescados, garantir “ambiente competitivo justo” e zelar pela sustentabilidade do setor.
É justamente aí que surge a contradição que mereceu investigação jornalística: Eduardo Lobo, presidente da Abipesca e da Câmara Setorial junto ao Governo, entidades que se apresentam como defensoras da legalidade, rastreabilidade e sustentabilidade da pesca, aparece no centro das apurações da Operação Locusta envolvendo a cadeia da lagosta e a Prime Seafood, onde Eduardo também é presidente (CEO) e que hoje é controlada pela Frescatto.
Em outra campanha, de 9 de agosto de 2023, foi ainda mais enfático: “A ABIPESCA repudia a pesca IUU” (IUU, illegal, unreported, and unregulated, que, traduzindo, significa ilegal, não reportada e não regulamentada), classificando como clandestinas as lagostas capturadas no defeso, abaixo do tamanho permitido e fora de indústrias com rastreabilidade e fiscalização.
Exatamente o que está sendo investigado pela PF, pelo Ibama e pela Receita Federal! A declaração foi atribuída ao próprio presidente da entidade, Eduardo Lobo Naslavsky.
O contraste ganhou uma imagem ainda mais simbólica em 29 de julho de 2026: Lobo aparece novamente no alto escalão federal, reunido com o ministro da Agricultura, André de Paula, e com o secretário-adjunto de Defesa Agropecuária para tratar das “pautas prioritárias da cadeia produtiva de pescados”.
A proximidade institucional não é episódica: a Abipesca representa empresas responsáveis, segundo a própria associação, por cerca de 90% das exportações e 70% do mercado nacional de pescado, e teve e tem membros da entidade na pasta, como Jairo Gund (ex-secretário de Aquicultura e Pesca do Governo Bolsonaro e atual diretor-executivo da Abipesca) e Carlos Cesar Mello Junior (ex-diretor técnico da Abipesca, ex-secretário-executivo e ministro substituto na gestão André de Paula e atual secretário nacional de Pesca Industrial, Amadora e Esportiva — SNPI/MPA).
Fica a pergunta para os nossos leitores: como o presidente da entidade que se apresenta como guardiã da legalidade da indústria pesqueira — e que publicamente condena exatamente a pesca clandestina de lagosta — chegou ao centro de uma investigação sobre a mesma cadeia produtiva, enquanto mantém acesso direto ao comando do Ministério responsável por regulá-la?
Confira as publicações citadas na matéria:













