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As milionárias transações entre Ambipar e Master enquanto ações explodiam na Bolsa

Por Redação
04/12/2025 - 10:00
CVM investiga empréstimo milionário entre Ambipar e grupo Master

CVM investiga empréstimo milionário entre Ambipar e grupo Master

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De O Globo – As transações entre Ambipar e Master ocorreram em setembro de 2024. Naquele mês, o fundo de investimento Máxima Multimercado Crédito Privado 2 — que fazia parte do conglomerado do Master — emprestou R$ 708,4 milhões a uma empresa chamada Everest Participações e Empreendimentos SA. O nome parece nada ter a ver com a Ambipar, mas a empresa foi listada na recuperação judicial da companhia como parte do conglomerado e tem entre seus administradores Guilherme Borlenghi, filho de Tércio, e Luciana Freire Barca Nascimento, diretora-adjunta da Ambipar.

A digital deixada pelo empréstimo é a carteira do fundo Máxima 2, que pode ser consultada na plataforma da CVM. Nos registros, a transação é descrita como um aporte do fundo em “títulos ligados ao agronegócio” emitidos em nome da Everest, com vencimento dali a dois anos.

Naquele mesmo mês, outras duas operações paralelas ocorreram. A Everest fez uma alienação fiduciária de cotas de um fundo chamado Decarbon (hoje Osaka), avaliadas em valor similar ao do empréstimo — R$ 700 milhões —, ao próprio fundo Máxima. O contrato afirmava que os recursos levantados por meio das “notas comerciais (emitidas pela Everest) serão destinados (…) para aquisição de cotas do fundo Decarbon.” Na mesma data, o fundador da Ambipar, Tércio Borlenghi Junior, alienou ações da Everest ao mesmo fundo Máxima Crédito Privado 2. A coluna teve acesso aos dois contratos de alienação fiduciária, registrados em 3 de setembro de 2024.

Ou seja: a Ambipar, por meio da Everest, tomou um empréstimo da ordem de R$ 700 milhões junto ao fundo do Master com o objetivo de investir no fundo Decarbon. Já o fundo do Master recebeu como garantias ações da própria Everest, que lhe devia dinheiro, e cotas do Decarbon.

Operação de R$ 700 milhões conecta Ambipar, Master e Nelson Tanure
Operação de R$ 700 milhões conecta Ambipar, Master e Nelson Tanure

Outro fundo ligado ao Master

Acontece que esse fundo Decarbon apresenta indícios claros de relação com o próprio conglomerado do Master. O fundo é administrado pela Banvox, de Maurício Quadrado, que à época era um dos principais sócios do Master. A gestão era da Blue Solutions, que, segundo relatório da área técnica da CVM, é sucessora da M Asset e tem entre seus sócios o FIP Jaguar, que investia em outras empresas do grupo Master, entre elas a Planner, de Quadrado.

No dia em que a Everest assinou os contratos com o fundo Máxima, o fundo Decarbon recebeu um aporte de R$ 700 milhões, de acordo com os dados diários prestados à CVM. Não é possível saber quem eram os cotistas do veículo por questão de sigilo, mas a data é a mesma: 3 de setembro de 2024. O aporte catapultou o patrimônio do fundo, que era de apenas R$ 200 milhões até então.

Ao mesmo tempo, aparece na carteira do Decarbon, em setembro de 2024, exatamente R$ 700 milhões em “títulos de crédito privado” emitidos pela Lormont Participações, do empresário Nelson Tanure.

(A coluna citou o fundo Lormont Participações na semana passada, em matéria sobre como o colapso do Master virou munição de fundo da XP contra Tanure. A reportagem menciona acusações de um fundo da XP segundo as quais o Máxima 2 aplicou em várias empresas investidas por Tanure. À coluna, ele negou veementemente “qualquer participação societária, influência ou vínculo com o Banco Master”.)

Compra da Emae

Toda essa frenética sucessão de operações coincide com a conclusão de um negócio iniciado em março daquele ano e no qual Ambipar, Master e Tanure, segundo a CVM, tiveram envolvimento coordenado e direto: a privatização da Emae (Empresa Metropolitana de Águas e Energia).

A investigação da CVM afirma que, depois que um fundo de Tanure — o Phoenix FIP — foi declarado vencedor do leilão, desencadeou-se uma sequência de transações que fez as ações da Ambipar dispararem 863% na Bolsa apenas entre o fim de maio e 19 de agosto de 2024. De acordo com a área técnica do órgão, fundos da distribuidora de títulos Trustee, de Maurício Quadrado, foram o braço do Master no arranjo.

“A Trustee (por meio dos fundos) atuou em conjunto com o Sr. Tércio (controlador da Ambipar) no âmbito das aquisições de ações de emissão da companhia ocorridas entre junho e agosto de 2024, uma vez que tais aquisições teriam sido engendradas a partir do início do processo de privatização da Emae, sendo essas ações adquiridas posteriormente utilizadas como garantia no financiamento da aquisição daquela companhia”, resume ata da diretoria da CVM sobre a investigação, acrescentando:

“O que demonstraria um movimento orquestrado pelas partes no intuito de elevar as cotações das ações da Ambipar, favorecendo a constituição da garantia na aquisição da Emae, em benefício de Nelson Tanure, e alavancando o patrimônio de Tércio, como detentor da maior parte do capital social da companhia.”

3 de setembro de 2024

A data de 3 de setembro de 2024 parece ter sido mesmo crucial para toda essa engrenagem. Além de ter sido o dia em que a Ambipar tomou R$ 700 milhões junto a um fundo do Master e aplicou tudo em cotas de outro fundo relacionado ao mesmo grupo, foi exatamente naquela data que as cotas do Esna FIP — um dos fundos que vinham comprando ações da Ambipar de forma acelerada — foram transferidas do Banco Master para Tanure. Segundo a investigação da CVM, a transferência foi feita com preço 40% abaixo do valor de mercado das ações da Ambipar.

Também parecem ter sido emitidos em 3 de setembro de 2024 os R$ 700 milhões em títulos da Lormont Participações que aparecem na carteira do fundo Decarbon. (O vencimento do título é 3 de setembro de 2027.) Lembrando que foi naquela data que a Everest, da Ambipar, aportou a mesma quantia no veículo ligado ao Master.

Só que, menos de um mês depois, o presidente do órgão, João Pedro Nascimento, renunciou por razões até agora pouco claras. O diretor Otto Lobo, que havia pedido vistas do processo, assumiu a presidência interina e, em um verdadeiro cavalo de pau, conseguiu barrar a realização da OPA alegando que agora comandava o colegiado e seu voto valeria por dois — mesmo que um presidente da CVM já tivesse votado no caso. A decisão revoltou a área técnica da CVM, que pede que o caso seja reconsiderado, mas Lobo até agora não voltou a pautá-lo.

Desde então, a Ambipar pediu recuperação judicial, o Master foi liquidado e Tanure perdeu a Emae — um fundo da XP executou as garantias de uma dívida emitida pelo empresário para fechar o pagamento e, na sequência, vendeu a participação à Sabesp. Tanure tenta desfazer a execução na Justiça.

O que diz a Ambipar

Procurada pela coluna, a Ambipar disse que “não tem conhecimento sobre o assunto”, embora as fontes consultadas para esta reportagem sejam públicas. Tanure, por sua vez, tem refutado qualquer “tentativa de associá-lo aos procedimentos administrativos e penais do Banco Master”, como afirmou à coluna nos últimos dias, por ocasião das acusações de um fundo da XP contra ele.

Tags: Investigação
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