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Home Economia

Banco Central surpreende mercado e corta juros para 6% ao ano

Por Ricardo Antunes
21/09/2019 - 18:19
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Por Marcello Corrêa e Ana Paula Ribeiro do O Globo

BRASÍLIA E SÃO PAULO – Depois de 16 meses, a taxa básica de juros voltou a cair no Brasil. O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu nesta quarta-feira reduzir a Selic de 6,5% para 6% ao ano. O corte de 0,5 ponto percentual surpreendeu boa parte dos analistas, que esperavam redução de apenas 0,25 ponto, segundo levantamento da Bloomberg.



O último corte de juros havia sido anunciado em 21 de março do ano passado. A decisão foi influenciada pelo avanço das reformas, em especial a da Previdência, e da necessidade de estímulo à economia. No comunicado, o BC sinalizou que deve continuar a afrouxar a política monetária.

O anúncio ocorre menos de um mês depois da aprovação da reforma da Previdência em primeiro turno na Câmara dos Deputados. Nas últimas dez reuniões, o Copom preferiu operar com cautela, diante das incertezas em relação ao andamento dessa e de outras medidas.

O comitê sempre observou que uma frustração no andamento das reformas poderia ter efeito na expectativa de investidores e, no longo prazo, impactar as projeções para a inflação — principal preocupação da autoridade monetária.



O efeito da votação da reforma da Previdência na Câmara foi notado pelo Copom. A proposta foi aprovada em primeiro turno na Casa no início de julho. O colegiado emitiu um comunicado muito parecido com o divulgado após a última reunião, realizada em junho, mas decidiu inserir uma menção a um “avanço” das reformas. Até junho, os diretores se limitavam a destacar a importância do andamento das reformas, sem reconhecer uma melhora no cenário.

Com dinheiro do FGTS na mão, primeira recomendação é pagar dívidas. Caso sobre recursos, indicação é investir Foto: Pixabay

“O Copom reconhece que o processo de reformas e ajustes necessários na economia brasileira tem avançado, mas enfatiza que a continuidade desse processo é essencial para a queda da taxa de juros estrutural e para a recuperação sustentável da economia.

O Comitê ressalta ainda que a percepção de continuidade da agenda de reformas afeta as expectativas e projeções macroeconômicas correntes. Em particular, o Comitê julga que avanços concretos nessa agenda são fundamentais para consolidação do cenário benigno para a inflação prospectiva”, diz a nota.

No texto, a autoridade monetária deu outra sinalização importante: deve continuar a reduzir juros. A dica está no parágrafo em que os diretores reconhecem que a política monetária pode ser também uma ferramenta para estimular a economia. Em tese, ao reduzir a taxa básica, os custos de financiamento tendem a cair, beneficiando empresas e famílias.

O comunicado do BC reconhece isso e diz que o cenário favorece a continuidade dessa política. Mas não crava que um próximo corte já está contratado, ao lembrar que uma revisão de expectativas pode fazer a autoridade monetária colocar o pé no freio.

“O Comitê avalia que a consolidação do cenário benigno para a inflação prospectiva deverá permitir ajuste adicional no grau de estímulo. O Copom enfatiza que a comunicação dessa avaliação não restringe sua próxima decisão e reitera que os próximos passos da política monetária continuarão dependendo da evolução da atividade econômica, do balanço de riscos e das projeções e expectativas de inflação”, pontua.

O Copom tem mais três reuniões até o fim do ano. Até semana passada, o mercado apostava que a Selic fecharia 2019 em 5,5% ao ano. Como o processo de redução da taxa começou mais acelerado do que o esperado pela maioria do mercado, é possível que essas previsões sejam calibradas.

A economia ainda não decolou após a grave recessão entre 2015 e 2016. Nos últimos meses, economistas do mercado financeiro têm reduzido para baixo suas projeções para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano. A mediana das previsões hoje, segundo o mais recente boletim Focus, é de crescimento de apenas 0,82% neste ano.

O anúncio do Copom ocorre no mesmo dia em que o Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) também reduziu juros. Foi a primeira vez, desde 2008, que a autoridade monetaria americana cortou a taxa básica, justificando preocupações com a economia global.

Bom, mas não suficiente

Na avaliação de economistas, ao optar por iniciar o processo de redução de juros com um corte de 0,50 ponto percentual, o Copom sinaliza que a Selic terá, até o final do ano, um corte maior do que o esperado.

– A decisão do Copom reforça que os juros podem cair um pouco mais. Antes, a expectativa era de um ciclo em torno de 100 pontos-base (o que significa uma redução total de 1 ponto percentual). Agora, vejo ao menos 125 pontos (1,25 ponto percentual) – disse Flavio Serrano, economista-chefe do banco Haitong.

Essa expectativa é reforçada pelo fato do Copom, no comunicado, ter afirmado que a inflação está em “níveis confortáveis”, ou seja, a autoridade monetária não vê um risco inflacionário.

E embora o corte seja positivo para quem quer fazer compras financiadas ou empresas que queiram investir, Serrano lembra que a simples redução da economia não estimula a economia, uma vez que as condições de emprego e renda ainda estão deterioradas.

– O corte de juros melhora um pouco a confiança, mas as ações de política monetária têm um efeito defasado na economia. É um impulso mais para o ano que vem. A queda da Selic e a liberação do FGTS dão algum suporte no curto prazo, mas para a gente sair do buraco do baixo crescimento, precisamos de reformas estruturais – afirmou.

Anna Reis, economista-chefe da GAP Asset Management, também acredita que o corte neste ano ficará acima de um ponto percentual. No entanto, lembra que o Copom destacou que é preciso que as reformas econômicas tenham continuidade para garantir novos cortes de juros.

– O BC ainda vê como risco preponderante o avanço das reformas. Dessa forma, ele mantém um certo grau de liberade e não se compromete com decisões futuras – avaliou.

Logo depois do anúncio da decisão do Copom, o porta-voz da Presidência, Otávio do Rêgo Barros, disse que não teve a oportunidade de comentá-la com Bolsonaro, mas disse que a percepção colhida no dia-a-dia com o presidente é que “ele está bastante satisfeito com isso”.

– Ele vem inclusive advogando, já há algum tempo, por meio da sua percepção, que isso seria muito interessante para a economia. E o Banco Central, dentro de toda a tecnicalidade que lhe é peculiar, avançou neste sentido […] uma expectativa positiva que isso possa reverberar em prol da sociedade, em prol da economia – declarou Rêgo Barros.

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Ricardo Antunes

Ricardo Antunes

Ricardo Antunes é jornalista, repórter investigativo e editor do Blog do Ricardo Antunes. Tem pós-graduação em Jornalismo político pela UnB (Universidade de Brasília) e na Georgetown University (EUA). Passou pelos principais jornais e revistas do eixo Recife – São Paulo – Brasília e fez consultoria de comunicação para diversas empresas públicas e privadas.

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