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Home Justiça

Brigas e superlotação acendem alerta para riscos do turismo nas principais praias do país

Por Thays Werllania
11/01/2026 - 12:30
Acesso por Barreirinhas à Lagoa Bonita, nos Lençóis Maranhenses

Acesso por Barreirinhas à Lagoa Bonita, nos Lençóis Maranhenses

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Do O Globo – Enquanto o governo celebra o recorde de 9,2 milhões de visitantes internacionais em 2025, o que contribui para o desenvolvimento de muitos municípios, o turismo de massa predatório, que leva superlotação e efeitos negativos a praias e locais ambientalmente sensíveis, desperta preocupação em diferentes destinos famosos.

Às vésperas da virada do ano, agressões de barraqueiros a clientes em Porto de Galinhas (PE) e Balneário Camboriú (SC) foram consequências de uma conjunção de problemas apontados por especialistas, como falta de planejamento e de políticas públicas adequadas em meio ao crescimento desordenado de cidades pequenas, carentes de infraestrutura.

Após o caso de Porto de Galinhas, a prefeitura de Ipojuca (PE), onde fica a praia, proibiu a exigência de consumação mínima nas areias. Outros locais seguiram o mesmo caminho: Niterói (RJ) decretou R$ 22,85 como valor máximo para aluguel de barraca, e em Florianópolis (RJ), Arraial do Cabo (RJ) e Ubatuba (SP), a fiscalização foi intensificada.

Casal de turistas foi agredido em Porto de Galinhas

Além das regras comerciais, o controle de visitantes vem sendo implementado em espaços de proteção ambiental. Em Jericoacoara (CE), Ilha Grande (RJ), Morro de São Paulo (BA), a cobrança de taxas de visitação gerou ações judiciais. Nos Lençóis Maranhenses (MA), recém-reconhecido como Patrimônio Natural Mundial pela Unesco, gestores estudam um limite diário de visitas.

Restrições

Mundo afora, há exemplos de limitação, e até proibição temporária, de visitas, a fim de se preservar os espaços. Monte Fuji, no Japão, e Machu Picchu, no Peru, diminuíram o horário e as visitas diárias. Veneza, na Itália, impôs restrições, e Mallorca, na Espanha, cobra taxas.

Ano passado, o país recebeu 9.287.196 turistas internacionais, recorde histórico e número 37% maior que 2024, até então a maior marca (6,7 milhões). Os argentinos lideraram (3.386.823), seguidos por chilenos (801 mil), norte-americanos (759 mil), paraguaios (528 mil) e uruguaios (524 mil).

Além dos estrangeiros, os próprios brasileiros vêm explorando mais os atrativos domésticos. Ana Carla Lopes, secretária-executiva do Ministério do Turismo, destacou a necessidade de uma “política integrada” entre os setores público e privado, além da participação da sociedade civil, para o turismo — setor econômico pujante — continuar crescendo de forma sustentável. A realidade de cada cidade, diz, tem que ser respeitada.

— Vai ser cobrada uma taxa de visitação? Vai ser dado um desconto para quem é morador da cidade? Tudo isso faz parte de uma política integrada — disse a secretária, que confirmou que a cobrança de taxa é um “ponto de atenção”. — A gente deve discutir sobre isso segundo cada experiência. Destinos que são mais vulneráveis a questões climáticas ou a um crescimento muito grande de visitantes têm que ter como atenção e, às vezes, é até necessária a taxa para conter o turismo de massa.

A briga em Porto de Galinhas, que terminou com o indiciamento de 14 pessoas pela Polícia Civil, foi sucedida por uma série de denúncias, inclusive de moradores, que se queixam da desordem no cartão-postal pernambucano que recebeu 1,2 milhão de visitantes em 2025, segundo o Porto de Galinhas Convention & Visitors Bureau. Em 2019, foram 937 mil. Hoje, muito graças ao turismo, o município de Ipojuca tem o terceiro PIB do estado, atrás apenas de Recife e Jaboatão dos Guararapes. Apesar disso, há problemas de saneamento básico, favelização e desordem urbana.

O crescimento do turismo no litoral sul pernambucano não é novidade. Em 2005, o laboratório de arquitetura da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) foi requisitado pela associação comercial local para apresentar um programa de qualificação urbana de Ipojuca. Na pesquisa, foram identificadas a expansão urbana desordenada e a carência de infraestrutura básica e equipamentos públicos.

— Já havia muito problema de engarrafamento e saneamento básico, e o turismo estava se prejudicando. O governo desenhava uma proposta na época, mas pediram nosso apoio. Lembro que a população de Ipojuca naquela época não chegava a 50 mil pessoas, hoje já são 106 mil habitantes, segundo o IBGE — afirma o urbanista Zeca Brandão, então coordenador do laboratório, que diz que o projeto foi executado apenas parcialmente.

Brandão diz que Porto de Galinhas, uma antiga vila de pescadores “descoberta” pela classe média nos anos 1970, ilustra uma situação que se repetiu em muitos lugares do país: crescimento sem planejamento, que culmina em deterioração do ambiente local.

— Como várias outras cidades praieiras, há total descontrole urbano, e o poder público demora para reagir. Ao mesmo tempo, a infraestrutura para população local, de educação, saúde e segurança, é deficiente — afirma

Destinos com visitação em alta no Brasil

Alta temporada

O italiano Matteo Soussinr chegou em Santo Amaro, uma das cidades dos Lençóis Maranhenses, em 2013, quando abriu uma pousada voltada ao turismo sustentável. Lá, testemunhou o “crescimento acelerado” do município, que hoje tem quase 20 mil moradores e recebe o triplo de pessoas na alta temporada (junho a agosto). Em 2021, Santo Amaro teve 61 mil visitantes, o que subiu para 297 mil no ano passado, segundo a prefeitura.

A visitação ao Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses aumentou 191% desde a pandemia: 141 mil visitas em 2019 e 440 mil em 2024. Por isso, os municípios, o ICMBio, que gere o parque, e a comunidade local estão estudando a possibilidade de limitar a quantidade de visitas diárias. A previsão está no edital lançado para operadores de turismo se credenciarem e trabalharem no parque.

— O desenvolvimento econômico da região é bem evidente, o turismo tem sido realmente motor de mudança dessa realidade regional. Mas os números vêm chamando a atenção, o que motiva a análise para entender capacidade de visitas ao parque. O risco de contaminação do lençol freático é a grande preocupação — explica Soussinr.

Atualmente, visitantes que vão a Santo Amaro precisam pagar uma taxa de R$ 10 para uma estadia de três dias, e um imposto é cobrado sobre passeios turísticos.

— Houve uma mudança radical nos números, um crescimento exponencial — resume Soussinr, que cita Barreirinhas, a maior cidade da região, de 90 mil habitantes, como um exemplo do que deve ser evitado. — Barreirinhas tem fama de ter sido a primeira prova de que, se não for feito planejamento prévio, gera-se problemas sérios, com crescimento desordenado, especulação imobiliária e lixo. Esses problemas começaram a aparecer em Santo Amaro.

Mariana Aldrigui, pesquisadora em turismo da USP, afirma que as políticas públicas para o setor ainda são incipientes no Brasil e mais voltadas à divulgação de destinos, sem olhares aprofundados para o ordenamento e desenvolvimento das cidades.

— Somos responsivos, sem planejamento prévio. Só resolve depois que alguma coisa deu errado. A massificação não ocorre de um dia para o outro, os indícios vão acontecendo — explica Aldrigui, que cobra debate qualificado junto à comunidade local. — No vácuo de política pública, a especulação imobiliária que pauta o crescimento da cidade.

Em 2024, os Parques Nacionais bateram recorde de visitas: 12,4 milhões. Procurado, o ICMbio afirmou que o “turismo de massa é uma realidade, sobretudo nos principais cartões-postais do país”, e por isso trabalha para melhorar a infraestrutura sem comprometer a biodiversidade, com monitoramento permanente e ajustes nas regras de uso.

Já o Ministério do Turismo disse que atua na “promoção do turismo responsável, no fortalecimento da gestão dos destinos e na diversificação da oferta turística, reduzindo a concentração excessiva de visitantes em poucos locais”. O Programa Lixo Zero e a atualização do Mapa do Turismo Responsável são algumas das iniciativas da pasta.

Tags: Turismo
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Thays Werllania

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Profissional responsável pela edição e publicação de conteúdos no WordPress.

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