Por Ricardo Antunes – O poeta, filósofo e cineasta pernambucano Jomard Muniz de Britto morreu na última segunda-feira (12), aos 89 anos. O velório ocorreu ontem (13), no Cemitério de Santo Amaro, no Recife. Ele foi meu professor no Centro de Artes e Comunicação (CAC) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e paraninfo da minha turma.
Em agosto de 2016, esbarrei com ele por acaso e tomamos um café. Como não poderia deixar de ser, fiz uma breve entrevista, cujo vídeo publicarei mais tarde. Anos depois, o mestre foi abatido pelo Alzheimer e já não reconhecia ninguém. Mas nós sabemos quem ele foi e reconhecemos sua importância para a cultura, não apenas de Pernambuco, mas de todo o país.
Viva Jomard!
Leia o texto publicado hoje pelo Diario de Pernambuco.
Jomard Muniz de Britto nasceu em 8 de abril de 1937, no bairro de São José, no Recife. O diretor e autor ficou conhecido por obras como O Palhaço Degolado e Inventário de um Feudalismo Cultural. Filho da pernambucana Maria Celeste Amorim, Jomard era o primogênito e o único sobrevivente entre cinco irmãos. Estudou estética com Ariano Suassuna, com quem posteriormente teve divergências intelectuais. Ao longo da carreira, lecionou disciplinas como introdução à filosofia, teoria do conhecimento e estética.
No início dos anos 1960, aproximou-se do cineasta baiano Glauber Rocha, que o convidou para passar uma temporada em Salvador. Jomard atribuía a Glauber o despertar de seu interesse pela realização cultural. Em Pernambuco, passou a se destacar pela atuação em diferentes áreas, como filosofia, cinema, literatura e música, além de desenvolver atividades como agitador cultural no estado.
Jomard integrou a equipe do Serviço de Extensão da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a convite do educador Paulo Freire. Em maio de 1964, após o golpe militar, integrantes do grupo receberam informações de que estavam na mira dos militares e de que poderiam ocorrer prisões.
Naquele mesmo ano, Jomard foi preso e levado ao Forte das Cinco Pontas, onde dividiu cela com o político Gregório Bezerra por cerca de 20 dias. Aposentou-se precocemente da UFPE, onde atuava como professor, mas continuou ministrando aulas e palestras em cidades como Campina Grande e João Pessoa, na Paraíba.
Jomard é considerado um dos precursores do tropicalismo em Pernambuco e participou da formulação de algumas das bases do movimento. Em 1968, assinou, ao lado do músico Aristides Guimarães e do jornalista Celso Marconi, o primeiro manifesto tropicalista. Seu trabalho também repercutiu entre artistas como Caetano Veloso e Gilberto Gil.
Por determinação do comandante da região militar, Jomard foi legalmente impedido de lecionar na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) a partir de 1969. A medida ocorreu no contexto da perseguição política durante a ditadura militar, relacionada à sua atuação acadêmica e à proximidade com Paulo Freire. Nas décadas de 1970 e 1980, o pernambucano desenvolveu sua carreira como realizador cinematográfico, sobretudo como diretor de filmes em Super-8. Entre 1976 e 1977, produziu O Palhaço Degolado, que se tornou sua obra cinematográfica mais conhecida.
Com 13 minutos de duração, o filme mostra Jomard caracterizado como palhaço, caminhando pela antiga Casa de Detenção, atual Casa da Cultura, no bairro de Santo Antônio, no Recife. Durante o monólogo, o personagem provoca referências consagradas da cultura regional, especialmente Gilberto Freyre e Ariano Suassuna.
Segundo o historiador Aristides Oliveira, o filme expressa a angústia de Jomard diante da incompletude e das restrições impostas às práticas culturais, em um contexto marcado pelos efeitos do golpe de 1964. O Palhaço Degolado recebeu o prêmio de Melhor Filme sobre o Homem e o Nordeste no Festival de Cinema Super-8. A produção também foi exibida no Festival Nacional do Filme Super-8 e na Mostra Marginália 70, em São Paulo.
Em 2017, em comemoração aos 80 anos de Jomard, foi lançada a biografia Jomard Muniz de Britto: Professor em transe, escrita pela jornalista Fabiana Moraes e pelo historiador Aristides Oliveira. Em novembro de 2025, seus filmes foram remasterizados e exibidos durante a 16ª edição do Janela Internacional de Cinema do Recife, festival fundado e idealizado por Kleber Mendonça Filho. O curador audiovisual Moacir dos Anjos também esteve presente.
Entre as obras exibidas estavam Jogos Labiais Libidinais (1979), Inventário de um Feudalismo Cultural (1978, 12 minutos), Alto Nível Baixo (1977, 6 minutos), Discurso Classe Média (1977, 4 minutos) e O Palhaço Degolado (1976, 13 minutos).















