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“Com governo à beira do ataque de nervos, reforma na equipe de Bolsonaro depende de três eleições”, por Vera Rosa

Entre 'Maria Fofoca' e 'Nhonho', nem seriado de Chaves seria capaz de tanta confusão

Por Ricardo Antunes
29/10/2020 - 17:43
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*Por Vera Rosa, do Estado de S. Paulo — O governo se transformou em uma briga sem fim, que se estende ao Congresso e ao Supremo Tribunal Federal (STF). Nessa quadra de acusações e xingamentos de autoridades pelas redes sociais, o presidente Jair Bolsonaro aguarda o resultado de três eleições para fazer uma reforma ministerial e dar nova fisionomia à equipe. Nada indica, porém, que as cotoveladas públicas entre integrantes do primeiro escalão, à beira de um ataque de nervos, estejam perto do fim.

 

Duas campanhas que vão influenciar na montagem do novo xadrez da Esplanada são domésticas e uma, norte-americana. Se o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, perder a eleição para o democrata Joe Biden, no próximo dia 3, Bolsonaro e a ala ideológica do governo sofrerão forte derrota. Com uma reviravolta dessa magnitude no cenário político internacional, Bolsonaro seria praticamente obrigado a rever a política externa comandada pelo chanceler Ernesto Araújo e a agenda ambiental, hoje nas mãos de Ricardo Salles.

Conhecido por dizer ao presidente, numa reunião em abril, que ele deveria aproveitar a “oportunidade” provocada pela pandemia do coronavírus para “ir passando a boiada” em votações para mudar portarias e normas do Meio Ambiente, Salles é aquele que, nos últimos dias, batizou o general Luiz Eduardo Ramos, ministro da Secretaria de Governo, de “Maria Fofoca”. Não foi só: na noite desta quarta-feira, 28, ele publicou post chamando o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), de “Nhonho”, mas, horas depois, já na manhã desta quinta, 29, negou a ofensa e disse que seu perfil no Twitter havia sido invadido.

Ricardo Salles usou avião da FAB para voo particular
Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles é visto hoje como o “novo Weintraub”

Salles é visto hoje pela ala ideológica do governo como o “novo Weintraub”, uma referência ao ex-ministro da Educação Abraham Weintraub, que chamou ministros do STF de “vagabundos” e hoje ocupa uma diretoria do Banco Mundial, em Washington.

Embora o desfecho da disputa nos EUA ainda seja uma incógnita, o fato é que Bolsonaro acompanha com lupa essa eleição, tanto quanto analisa o mapa político que sairá das urnas no Brasil, nos confrontos municipais de novembro. Os embates para as prefeituras são considerados uma prova de fogo pelos partidos e indicam a força de cada um para a sucessão presidencial de 2022.

Bolsonaro não pode correr riscos ao mexer as peças do Ministério antes de verificar quem ganha e quem perde o jogo. Todas as estratégias miram o mercado futuro da política. Prefeitos, no caso, são potenciais cabos eleitorais na corrida pelo Palácio do Planalto e o presidente está em campanha por um novo mandato.

Até agora, o bolsonarismo tem enfrentado dificuldades na batalha pelas prefeituras de colégios eleitorais importantes, como São Paulo, Belo Horizonte e Rio. Na capital paulista, por exemplo, o candidato do Republicanos, Celso Russomanno, chegou a tirar o nome de Bolsonaro de seu jingle, como revelou o Estadão, após sofrer queda no índice de intenção de votos. O prefeito do Rio, Marcelo Crivella (Republicanos), que concorre à reeleição, e o deputado estadual Bruno Engler (PRTB), em Belo Horizonte, também patinam nas pesquisas. Os três candidatos em apuros são apoiados por Bolsonaro.

Candidatos a prefeito apoiados por Bolsonaro sofrem grandes dificuldades, como é o caso de Marcelo Crivella, no Rio.

A terceira eleição que terá impacto na reforma ministerial é a da cúpula do Congresso, em fevereiro de 2021. Há uma disputa acirrada entre Rodrigo Maia e o Centrão, controlado pelo deputado Arthur Lira (AL), que lidera a bancada do Progressistas. Lira quer a cadeira de Maia na presidência da Câmara. Bolsonaro se aliou ao Centrão para se proteger de eventual processo de impeachment no Congresso e blindar seus filhos de investigações. Detalhe: no ano passado, o vereador Carlos Bolsonaro, o “02” do presidente, publicou um vídeo no Twitter mostrando ratos passando embaixo das pernas de “Nhonho”. O personagem do seriado Chaves sempre foi associado a Maia, de forma pejorativa, por aliados bolsonaristas.

A Constituição de 1988 proíbe que presidentes da Câmara e do Senado sejam reconduzidos ao cargo na mesma legislatura e, diante do impasse, a polêmica chegou ao Supremo Tribunal Federal. A tendência de ministros da Corte é lavar as mãos, sob o argumento de que se trata de questão interna do Congresso. De qualquer forma, uma decisão assim abre caminho para Davi Alcolumbre (DEM-AP), presidente do Senado, lançar sua candidatura.

Na Câmara, porém, tudo parece mais complicado e a queda de braço entre Maia e Lira invadiu a Comissão Mista de Orçamento. Por causa do litígio, a comissão – que ainda precisa votar a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) para 2021, um passo anterior à análise do próprio Orçamento – não conseguiu nem mesmo ser instalada até agora.

Diante de tanta balbúrdia, o líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (Progressistas-PR) ainda criou mais uma confusão ao dizer que a Carta Magna de 1988 tornou o País “ingovernável” e pregar uma nova Assembleia Nacional Constituinte. A defesa de Barros foi feita na segunda-feira, 26, um dia após o plebiscito do Chile ter aprovado a convocação de uma Assembleia Constituinte, sepultando a Carta da ditadura militar.

Na segunda-feira, 26, um jantar que reuniu Maia, Ramos, o ex-presidente do STF Dias Toffoli e o novo ministro da Corte, Kassio Marques, serviu para abordar o momento conturbado do governo, que vive uma crise atrás da outra. É Salles que fala mal de Ramos, que briga com o ex-líder do governo na Câmara Major Vitor Hugo, que se desentendeu com Paulo Guedes (Economia), que bateu boca com Rogério Marinho (Desenvolvimento Regional), o “fura teto”. Sem contar duelos paralelos, como os protagonizados entre Salles e Maia e, nesta quinta, 29, entre Maia e o presidente do Banco Central, Roberto Campos. E assim, entre xingamentos de “Nhonho” e “Maria Fofoca” vive a política brasileira. Nem o seriado Chaves seria capaz de tanto.

__________________________

*Vera Rosa é jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

 

Tags: BolsonarismoDEMEleições 2020PRTBRepublicanosRodrigo Maia
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Ricardo Antunes

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Ricardo Antunes é jornalista, repórter investigativo e editor do Blog do Ricardo Antunes. Tem pós-graduação em Jornalismo político pela UnB (Universidade de Brasília) e na Georgetown University (EUA). Passou pelos principais jornais e revistas do eixo Recife – São Paulo – Brasília e fez consultoria de comunicação para diversas empresas públicas e privadas.

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