Por Marcos Antomil, do Estadão – Em 44 ocasiões o Autódromo de Interlagos recebeu uma corrida de Fórmula 1. Em apenas sete oportunidades quem subiu ao lugar mais alto do pódio era brasileiro. Somente quatro pilotos – curiosamente todos nascidos em São Paulo – venceram a prova em casa: Emerson Fittipaldi, José Carlos Pace – que batiza o circuito -, Ayrton Senna e Felipe Massa.
Ganhar na Fórmula 1 é raro. Ganhar em casa é exceção, não é regra para brasileiros. O horizonte para o paulista Gabriel Bortoleto e o pernambucano Rafael Câmara não pode ser comparado à carreira de qualquer compatriota que os antecedeu. Os dois chegaram à categoria depois de uma longa ausência de representantes nacionais no grid.
Para quem está em jejum qualquer migalha de pão vira um banquete. Mas no esporte, é diferente. Os brasileiros, habituados com Fittipaldi, Piquet e Senna, não se satisfazem com participar, querem ganhar. E se ganhassem, uma vitória não seria suficiente, seria obrigatório vencer todas as corridas. Caso alguém fosse campeão, a ansiedade impediria que os triunfos fossem comemorados sem o peso da frustração por uma derrota eventual no ano seguinte.
Talvez a nova geração que tem mudado o perfil do fã de Fórmula 1 saiba lidar melhor com a vitória e a derrota futuras. Não é justo cobrar que Bortoleto e Câmara sejam Senna, Fittipaldi e Piquet. Porque não serão. Mesmo que conquistem 10 títulos e 200 vitórias cada. Idolatria não se mede com taças e troféus. Há algo mais. Muitas vezes inexplicável.
As manhãs de domingo das décadas de 1980 e 1990 emulavam um rito de orgulho nacional em um contexto cultural, esportivo e midiático completamente diferente de 2026. A construção dos personagens atuais da Fórmula 1 não se baseia nas mídias tradicionais. O ambiente digital condiciona a uma fabricação de idolatria baseada em algoritmos e acessos a bastidores e intimidades editadas para um público hiperconectado e consumidor de enredos dramáticos. Nem mesmo a nacionalidade gera um vínculo automático.
Câmara e Bortoleto foram campeões de tudo o que podiam nas categorias de base. Apesar de estar em uma equipe com ambições medianas no grid (Haas), o pernambucano está na lista da Ferrari para o futuro. Já o paulista está numa escuderia que acabou de chegar à F1. A Audi ganhou por onde passou. Resta saber se há paciência, inclusive para Bortoleto, esperar até 2029 ou 2030 para brigar pela ponta. Pelas palavras ditas neste fim de semana, Câmara parece não sentir sobre os ombros o mesmo peso que Bortoleto.
A complexidade tecnológica da Fórmula 1 mudou a razão de forças entre piloto e carro. Ter nas mãos uma máquina como a Mercedes, a Red Bull e a McLaren te dá possibilidades de ganhar que uma Haas e uma Audi hoje são incapazes de dar. Bortoleto e Câmara têm potencial para levar o Brasil ao lugar mais alto do pódio. E, se conseguirem, serão Gabriel e Rafael, sem apagar, diminuir ou aumentar Ayrton, Emerson e Nelson.











