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Com máscara, chapéu e ajuda de ex-militares de elite. Como Carlos Ghosn escapou do Japão:

Por Ricardo Antunes
07/01/2020 - 07:56
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Com informações da Bloomberg e O Globo |

TÓQUIO, CINGAPURA E LONDRES – Na noite de Natal, Carlos Ghosn foi ao modesto escritório de seus advogados no centro de Tóquio para falar com sua mulher, Carole, pela segunda vez desde abril passado.

Ao longo de sua odisseia pelo sistema judicial japonês — com várias prisões, mais de cem dias na solitária, interrogatórios sem fim e, depois de sua saída sob fiança, vigilância 24 horas por dia — Ghosn fora forçado a aceitar muitas humilhações.

Mas entre as piores delas estava ter de pedir permissão ao tribunal até para falar com a mulher, que os promotores viam como cúmplice nos crimes financeiros de que o ex-presidente da Nissan-Renault era acusado.

Carole, que saíra às pressas do Japão depois da quarta prisão de Ghosn em abril do ano passado, passou o resto do ano fazendo lobby em defesa do marido.

— Eles destruíram nossas vidas, estamos marcados para sempre — afirmou à Bloomberg em novembro. — Este foi o ano mais díficil da minha vida.

Conversa com a mulher, só por uma hora

Só era permitido ao casal falar por uma hora, o que não era suficiente; eles tinham muito mais para conversar. Quando o tempo acabava, segundo os advogados, Ghosn se despedida com um “eu te amo, habibi”, um termo árabe que indica afeição.

Parecia impossível saber quando eles poderiam se falar de novo, ou mesmo se abraçarem.

No dia seguinte, Ghosn soube que o segundo de seus julgamentos poderia só começar em 2021, aumentando a perspectiva de mais um ano de isolamento imposto pelo tribunal.

Até os filhos de Ghosn eram alvo dos investigadores. Promotores japoneses interrogaram o filho Anthony, que estava envolvido em algumas das transações do caso, e também uma das filhas do executivo, segundo uma fonte a par do assunto. Temendo ser preso, Anthony não conseguiu visitar o pai.

As chances de Ghosn conseguir provar sua inocência no Japão eram mínimas A promotoria ganha mais de 99% dos casos, e tem várias vantagens processuais.

Contra Ghosn, que poderia pegar mais de dez anos de cadeia, eles tinham uma vantagem extra: a total cooperação da Nissan, que deixou clara sua determinação de vê-lo condenado e passou aos promotores uma montanha de documentos, bem como assistência nas investigações.

Ghosn, que tem cidadania brasileira, francesa e libanesa, buscou ajuda diplomática nos três países. Só o Líbano agiu com entusiasmo evidente, mas os esforços do país foram em vão.

Uma jogada desesperada

O executivo, porém, tinha uma jogada desesperada, que foi planejada durante meses, e restauraria sua liberdade se tudo desse certo. No Oriente Médio, um Boina Verde do exército americano e um veterano da invasão do Iraque em 2003 prepararam um plano ousado para tirar Ghosn de Tóquio, bem debaixo dos narizes da polícia. O objetivo era levá-lo até Beirute, cidade onde passou sua infância e capital de um país onde Ghosn sempre foi considerado quase um herói nacional.

A princípio, a ideia pode ter parecido ridícula. Mesmo sem tornozeleira eletrônica, os movimentos de Ghosn eram monitorados de perto por câmeras como a instalada na porta de sua casa alugada, no movimentado bairro de Ropongi, e quando ele saía era vigiado por equipes de agentes à paisana.

Sobrancelhas denunciadoras

Além disso, com orelhas de abano, sobrancelhas espessas e costeletas, Ghosn seria facilmente reconhecível na rua mesmo se fosse um desconhecido. Mas no Japão ele é um dos estrangeiros mais famosos. Assim, as chances de escapar sem ser detectado eram muito poucas.

Mas havia uma oportunidade. No Japão, o Ano Novo é o feriado mais longo do ano, e as repartições públicas fecham por mais de uma semana. Promotores e policiais tiram folga para ficar com as famílias.

E a defesa de Ghosn registrou queixa contra a empresa de segurança privada contratada pela Nissan para seguir Ghosn, alegando que ela estava violando seus direitos. Com isso, segundo fontes, os seguranças privados recuaram, pelo menos temporariamente.

A ajuda certa para escapar

Se Ghosn ia fugir, esta era a hora, mas ele precisava da ajuda das pessoas certas.

No mundo sombrio de fornecedores de segurança particular, Michael Taylor se destacava por proteger pessoas e empresas e ajudar os EUA a investigar crimes. Também admitiu ter violado a lei eventualmente.

Veterano das Forças Especiais do exército americano, os Boinas Verdes, Taylor fundou em 1994 a American International Security Corp, empresa de segurança privada que fornecia proteção para prospecção de petróleo e altos executivos. Chegou a liberar crianças que foram reféns de sequestros.

Foi contratado pelo New York Times para resgatar um de seus correspondentes no Afeganistão, David Rohde, que fora sequestrado em 2008. E trabalhou camuflado para o FBI.

Taylor foi enviado a Beirute na guerra civil do Líbano, e assim começou uma relação com a comunidade cristã do país, segundo seus advogados. Ghosn é um membro importante dessa comunidade. Atlético, com cabelo prateado, Taylor fala árabe, sua esposa Lamia é libanesa e dois de seus filhos fizeram universidade no país.

Para a operação Ghosn, Taylor teve um parceiro, o libanês George-Antoine Zayek, que era membro de uma milícia cristã quando conheceu Taylor nos anos 80. Zayek deixou o Líbano em 2003, após a invasão do Iraque, e começou a trabalhar para uma empresa de segurança privada.

Chapéu e máscara no trem-bala

Na manhã do domingo, 29 de dezembro, Taylor e Zayek chegaram, a bordo de um jato Bombardier Global Express (com autonomia de voo de 11 mil quilômetros), a um terminal privado no aeroporto internacional de Kansai, numa ilha artificial perto de Osaka. Havia duas grandes malas pretas a bordo, segundo fontes com conhecimento sobre o voo.

Mais tarde, no mesm dia, de acordo com câmeras de vigilância japonesas, Ghosn saiu de casa usando um chapéu e uma máscara cirúrgica (comum para proteção contra germes no país). Ele pegou um trem-bala da estação de Shinagawa até Osaka às 16h30 e, chegando lá, tomou um táxi até um hotel perto do aeroporto, segundo a rede NTV.

Naquela noite, o mesmo jato Bombardier decolou do aeroporto de Kansai para Istambul, na Turquia. A equipe de segurança achou que voar direto para Beirute, que recebe pouquíssimos voos de Osaka, levantaria suspeitas.

Dentro da mala preta

Passageiros para o exterior no terminal privado passam por controle de passaportes, e havia oficiais de alfândega e imigração presentes no local. Mas, aparentemente, Ghosn viajou como carga, escondido dentro de uma enorme mala preta que seria grande demais para passar pelo raio X. Às 23h10, o avião estava no ar.

Levaria 12 horas até Istambul. A aeronave voou para o norte-noroeste, evitando o território sul-coreano (país que tem acordo de extradição com o Japão), e cruzou o espaço aéreo da Rússia, onde ficou por quase toda a viagem. Não era a rota mais direta (que passava por China, Mongólia e Cazaquistão), mas manteve Ghosn sobre um país onde ele tinha boas conexões após unir a montadora russa AvtoVAZ à aliança Nissan-Renault.

Se o Japão quisesse forçar a aterrissagem do avião, Ghosn poderia esperar simpatia dos russos, ou, pelo menos, que eles demorassem a atender as autoridades japonesas.

Uma caixa para trocar de avião

Mas o governo japonês parecia não saber que Ghosn deixara o país. Assim, o Bombardier pousou às 5h30 do dia 30 de dezembro em Istambul. Como mudar de aeronave poderia chamar a atenção das autoridades para Ghosn, ele foi transferido, segundo um funcionário turco, dentro de uma caixa para um avião Bombardier menor, que logo decolou para Beirute.

Chegando em segurança ao país onde passara sua juventude, Ghosn não precisou esconder mais sua identidade. Embora seus advogados tivessem retido seus documentos de viagem, ele ainda tinha dois passaportes franceses (um raro privilégio, para cidadão que precisassem viajar com um deles enquanto o outro era enviado para novos vistos). Ghosn ficara com o segundo, guardado num cofre cuja senha só os advogados sabiam.

Mas, de acordo com uma pessoa a par do assunto, o cofre foi fácil de arrombar com um pouco de óleo e uma furadeira. Assim, o passaporte foi usado para entrar no Líbano.

Casa que pertenceria a Ghosn em Beirute. Foto: MOHAMED AZAKIR / REUTERS
Casa que pertenceria a Ghosn em Beirute. Foto: MOHAMED AZAKIR / REUTERS

Reencontro e champanhe

A mulher de Ghosn, Carole, que estava contando os dias para rever o marido (que não via em pessoa há nove meses), estava com a família em Beirute quando ele aterrissou. Ela correu para recebê-lo, e o casal só se reuniu com amigos para um jantar de Ano Novo no dia seguinte. Uma foto os mostra à mesa, bebendo vinho e champanhe, parecendo um casal normal.

Mesmo os conselheiros mais próximos de Ghosn ficaram surpresos quando a notícia de sua fuga vazou em 31 de dezembro. Seus advogados japoneses disseram que de nada sabiam, e o advogado principal, Junichiro Hironaka, pareceu embaraçado ao dar uma entrevista coletiva improvisada. O escritório de advocacia americano Paul Weiss também foi pego de surpresa, bem como Greg Kelly, que foi preso junto com Ghosn e está no Japão aguardando julgamento. Ele nega qualquer envolvimento.

Teoria ‘musical’ sobre escapada

Sem qualquer pista sobre como a fuga se deu, várias teorias se espalharam sobre o plano. A que mais circulou disse que Ghosn saiu de casa escondido num enorme instrumento musical após receber uma trupe de músicos libaneses para um concerto de Ano Novo em sua casa.

Em 2 de janeiro, Ghosn afirmou num comunicado que planejara a fuga sozinho, sem qualquer ajuda de sua família.

 

TOPSHOT - O embaraço do advogado de Ghosn, Junichiro Hironaka, após a fuga. Foto: KAZUHIRO NOGI / AFP

TOPSHOT – O embaraço do advogado de Ghosn, Junichiro Hironaka, após a fuga. Foto: KAZUHIRO NOGI / AFP

Na Turquia, sete pessoas ligadas aos voos foram presas, incluindo quatro pilotos. A MNG Jet Havacilik AS, empresa que alugou os jatos, registrou queixa contra um funcionário que teria falsificado registros para esconder a fuga. E o ministro da Justiça do Japão anunciou a abertura de uma investigação sobre a fuga. O governo japonês pediu que a Interpol emitisse um alerta vermelho para Ghosn.

 

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Ricardo Antunes

Ricardo Antunes

Ricardo Antunes é jornalista, repórter investigativo e editor do Blog do Ricardo Antunes. Tem pós-graduação em Jornalismo político pela UnB (Universidade de Brasília) e na Georgetown University (EUA). Passou pelos principais jornais e revistas do eixo Recife – São Paulo – Brasília e fez consultoria de comunicação para diversas empresas públicas e privadas.

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