Por Alexandre Borges – O nome da hagiografia de Jair Bolsonaro (PL), “Dark Horse”, já era sinal de mau agouro.
A expressão significa “azarão”, um vencedor improvável, já que ninguém poderia supor que o Judiciário mandaria prender o adversário de Bolsonaro, Lula (PT), durante a pré-campanha eleitoral de 2018.
Em “O Senhor dos Anéis”, os fantasmas conhecidos como Nazgûl, subordinados a Sauron, espalham o terror montando cavalos negros.
Na Bíblia, o terceiro cavaleiro do Apocalipse aparece montado num cavalo negro, com uma balança na mão, e anuncia fome e miséria (Ap 6,5-6). Contra “fome e miséria” de políticos e autoridades, ninguém melhor que Vorcaro nos últimos tempos.
Até o momento, nenhum político havia sido flagrado pedindo dinheiro para Daniel Vorcaro, e o terremoto político das últimas horas se justifica.
Flávio Bolsonaro (PL) pediu ao dono do Banco Master R$ 134 milhões, alegadamente para a cinebiografia do pai. Pelo menos R$ 61 milhões foram transferidos entre fevereiro e maio de 2025, em seis operações da Entre Investimentos, empresa ligada ao grupo Master, para o Havengate Development Fund LP, fundo registrado no Texas.
O representante legal do Havengate é o escritório de Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro. O corretor de imóveis Altieris Santana aparece no quadro societário. Calixto e Santana dividem o mesmo endereço comercial em Dallas.
A operação contou com intermediários. O empresário Thiago Miranda, sócio-fundador do Portal Leo Dias, participou das negociações. Fabiano Zettel, cunhado e principal operador financeiro de Vorcaro, organizava os repasses. Eduardo Bolsonaro aparece nas conversas em 21 de março de 2025, sugerindo “alternativas para facilitar o envio dos recursos aos EUA”.
Vorcaro foi preso pela Polícia Federal tentando deixar o país em 18 de novembro de 2025, no dia seguinte ao “estarei contigo sempre” de Flávio. O Banco Master foi liquidado pelo Banco Central no dia seguinte, com rombo estimado em R$ 50 bilhões no FGC (Fundo Garantidor de Créditos).

Na época, a situação do Master não era segredo para ninguém em Brasília. A CVM (Comissão de Valores Mobiliários) investigava movimentações atípicas no banco desde 2022. O Banco Central emitiu ultimato a Vorcaro em 2024, com prazo de 180 dias para reestruturação do Master.
O próprio Vorcaro assinou em novembro daquele ano documento ao BC assumindo os problemas, com prazo final para correção em maio de 2025, exatamente o período em que as seis transferências para o Texas foram concluídas. Nas conversas, Flávio reconhece que “Daniel” estava passando por momentos difíceis.
O Ministério Público Federal havia requisitado à PF, ainda em 2024, o início de investigações criminais do Master por emissão de títulos falsos. Brasília, em 2025, estava careca de saber quem era Daniel Vorcaro.
O valor pedido para o filme também merece atenção.
Nada menos que R$ 134 milhões foram solicitados para uma produção com anjos caídos de Hollywood e um time B ou C nos créditos. Para um filme com time modesto em termos artísticos, com poucas pretensões além da propaganda política para convertidos, produtoras bolsonaristas nacionais fariam tudo por 10% desse valor, mesmo incluindo o cachê de Jim Caviezel.
“Ainda Estou Aqui”, vencedor do Oscar, tem um custo estimado de R$ 45 milhões. “O Agente Secreto”, pouco mais da metade deste valor. A conta não fecha.
Mário Frias, deputado bolsonarista do PL, roteirista e produtor executivo do filme, divulgou nota oficial na noite de ontem: “Como já esclareceu a produtora GOUP Entertainment, não há um único centavo do sr. Daniel Vorcaro em Dark Horse”, escreveu. Então onde foram parar os mais de R$ 60 milhões repassados?
A produtora GoUp reforçou o comunicado: “Dentre os mais de uma dezena de investidores que compõem o quadro de financiadores do longa-metragem Dark Horse, não consta um único centavo proveniente do sr. Daniel Vorcaro, do Banco Master ou de qualquer outra empresa sob o seu controle societário”.
Alguns oportunistas que vivem há anos do bolsonarismo já começaram a se distanciar de Flávio, lembrando o adágio que os ratos são sempre os primeiros a pular de um barco que afunda.
É cedo para prever o que acontecerá nas próximas horas ou dias, mas o estrago é inegável. E sabe-se lá o que ainda está para surgir durante as investigações.
Até o momento, a surpresa é saber que um filme com jeito de documentário do Brasil Paralelo custou mais que uma festa de Vorcaro com Coldplay e isso, por si só, já é um escândalo que merece investigação rigorosa.
Cavalo negro, simbolicamente, nunca é portador de boas notícias. No folclore brasileiro, “Dark Horse” é a mula sem cabeça.
Alexandre Borges é Analista Político UOL e Canal Meio












