*Por Christian Casertani – Hippopotamus, 1985: deliciosas costas bronzeadas, pecado à mostra e muito cafajeste prometendo eternidade com uísque na mão e a chave do motel no bolso.
Mas… a sensualidade sumiu.
Não morreu, seria dramático demais. Apenas pediu um carro por aplicativo, saiu sem se despedir e deixou na mesa a conta da vulgaridade.
Vivemos a época em que todo mundo mostra tudo e ninguém revela nada. Corpos impecáveis, bocas infladas, músculos contratados, bundas com patrocínio, cérebros desligados e o desejo ali, sentado num canto, bocejando de tédio.
Nunca houve tanta nudez e tão pouca imaginação.
Sensualidade não é o decote. É o segundo antes do decote.
É o cabelo desalinhado depois de uma noite que ninguém precisa explicar. É uma voz que hesita, um olhar que demora meio segundo além da moral permitida. É o joelho que encosta debaixo da mesa e provoca um terremoto que não aparece nos noticiários.
Desaprendemos o mistério.
Hoje, antes do primeiro beijo, já conhecemos a academia, o cachorro, o signo, o prato preferido, a última viagem e até o banheiro da criatura. O desejo não encontra mais portas fechadas. E desejo sem porta fechada vira visita de condomínio: entra, toma café e vai embora cedo.
A sensualidade exige uma coisa considerada obscena no mundo moderno: silêncio.
Ninguém mais suporta o silêncio. É preciso postar, explicar, legendar, confirmar. “Foi incrível”, escreve-se depois de uma noite absolutamente “esquecível”. Porque agora não basta viver, é preciso emitir um boletim oficial sobre a própria felicidade.
E há também essa epidemia de desempenho. Homens preocupados em parecer máquinas; mulheres obrigadas a parecer incêndios.
Ninguém treme, ninguém tropeça, ninguém confessa medo. Viramos profissionais do prazer e amadores da entrega.
Saudade do desejo incompetente.
Tesão sempre foi uma pequena perda de controle.
Hoje, até o descontrole vem com iluminação correta e filtro parisiense.
Sensualidade não é ser desejado por todos. Isso é publicidade.
Sensualidade é ser percebido por alguém.
Talvez a sensualidade esteja escondida, apavorada, esperando que a gente pare de exibi-la.
De leve.









