Por Luiz Afonso Morêda – “Medusa” é um filme brasileiro de horror dirigido pela carioca Anita Rocha da Silveira. Estreou em 2021 numa sessão especial no Festival de Cannes, na França, mas como é de costume no Brasil, só foi lançado comercialmente no país agora, dois anos depois. É um filme que narra o processo de emancipação intelectual e social de Mari (Mari Oliveira), uma moça aglutinada em seu grupo de amigas, extremistas/terroristas religiosas.
Dito de outra maneira, o filme conta a história de uma moça, Mari, que vive numa pequena cidade do Sudeste do país. Ela vive numa família estranha, que o filme não nos mostra claramente, mas que é composta apenas de mulheres, e faz parte de um grupo de meninas, extremamente evangélicas, que cantam na igreja, promovem os “bons costumes”, e, à noite, saem na rua caçando mulheres devassas, espancam essas vítimas e publicam na internet.
É um filme político, de forma muito sagaz atento a certas questões próprias da realidade brasileira no momento, algo que nos últimos tempos tem sido presente em todos os projetos de longa-metragens contemplados com um orçamento considerável. A melhor amiga de Mari, em certo sentido uma má influência, uma pessoa amarga, nefasta e egoísta, que é a líder do grupo de meninas, chama-se Michele (Lara Tremouroux). Qualquer semelhança com aquela figura pública presenteada com as jóias milionárias não é mera coincidência.
Aliás, um dado curioso do filme é que a maioria do elenco principal é formada por mulheres, o único papel principal sendo o pastor, que como não poderia ser diferente, coordena o grupo de mulheres submissas ao patriarcado, interpretado por Thiago Fragoso.
Mas afinal trata-se de um filme, e é interessante como ele consegue delinear um universo próprio a partir de suas especificidades. O grupo de meninas é obcecado por uma lenda urbana que permeia a cidade: são loucas para encontrar o paradeiro de Melissa (Bruna Linzmeyer), uma linda jovem “devassa”, “libertina”, que um dia teve seu rosto ateado em fogo, deformado, e depois disso desapareceu.
É a partir desse mito fundador que Anita Rocha compõe o mundo da obra, que é um que foge de uma tendência naturalista e se aproxima do campo do fantástico, com luzes estranhas e coloridas em cena, ambientes não tão fáceis de reconhecer. Nesse sentido, “Medusa” encontra-se distante de filmes como “Marte Um” (2022) e “Mato Seco Em Chamas” (2022), e muito mais próximo de Divino Amor (2019) e Sol Alegria (2018). Como numa distopia, há um quê de bizarro na vida dessas personagens, mulheres aparentemente burguesas, que se esforçam a todo custo para se manter nos padrões de “belas, recatadas e do lar”, em cenários histriônicos que parecem casas de bonecas.
É também, em certo sentido, muito parecido com Bacurau (2019), longa de sucesso do diretor recifense Kléber Mendonça Filho. Possui um apelo social muito forte, que vende o filme como indispensável socialmente, e trabalha com um formalismo, com referências estéticas pontuais, possui um mínimo de consciência fílmica, por assim dizer. É uma questão incomum no cinema brasileiro hoje, cenário em que a forma costuma ser reduzida a um acessório à questão social, ao enredo.
Tanto o filme de Anita Rocha, quanto o de Kléber Mendonça, no entanto, ainda que se situem acima da maior parte do que é feito em termos de cinema comercial no país, são experiências um tanto rasas. São obras que se conformam com uma ou outra referência — em ambos os casos John Carpenter (“Halloween”, “Eles Vivem”) parece um nome presente — mas que vão muito pouco além disso, não chegam a propor uma ideia de filme, uma forma de tratar as referências que possuem.
No caso de “Medusa”, é interessante a emancipação da protagonista, acima de tudo, pois a diretora entende que a moral permeia a estética, e vice-versa. As pessoas que são perseguidas pelas “recatadas” possuem aparências plurais, diferentes, e então, no decorrer do filme, quando Mari começa a se dar conta da toxicidade do ambiente em que se encontra, a sua aparência, outrora tão comedida e adequada à padrões, vai se tornando, também, livre, original. A filiação do filme com o gênero de horror traz um dos grandes momentos da obra, na catártica cena final, quando um certo gesto, próprio desse tipo de filme, é recontextualizado, e reconfigurado de acordo com as especificidades de “Medusa”.
De qualquer forma, tem sido legal assistir a produções recentes de longas brasileiros. Ainda que os grandes filmes permaneçam escassos, ver uma obra brasileira, erguida com nossos próprios recursos, minimamente bem acabada, com um mínimo de consciência estética e formal mostra, ao menos, um cenário otimista pela sua fertilidade. E isso deve ser suficiente para atrair espectadores, que tenham um mínimo de curiosidade para saber, sem preconceitos, o que é produzido no nosso país em termos de cinema.
“Medusa” está em cartaz, em sessões diárias, no Cinema da Fundação Joaquim Nabuco, em Recife, nas salas do Porto Digital e do Museu do Homem do Nordeste.
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*Luiz Afonso Morêda é ex-estudante de jornalismo e atualmente estudante de cinema, em São Paulo. Faz parte da revista de cinema Vertovina, e já teve textos publicados em outros veículos especializados. Atuou como curador de mostras, além de produzir e realizar filmes.












