Por Ricardo Corrêa, do Estadão – No primeiro debate entre os candidatos à Presidência da República, o senador Flávio Bolsonaro conseguiu pautar a maior parte dos assuntos, sobretudo no início, quando os dois tiveram a oportunidade do mais livre confronto direto com perguntas e respostas sucessivas. Lula melhorou ao passar a repetir as mesmas perguntas, cobrando que o adversário não as respondia e cravando em Flávio que ele não teria resposta para elas. Também trouxe um fato novo, um desafio, que o adversário não aceitou.
No primeiro bloco do debate Band/Estadão, Flávio Bolsonaro explorou uma linguagem mais popular, sobretudo na economia e na segurança, mostrando mais desenvoltura também na circulação no estúdio, deixando Lula nervoso e, em alguns momentos, perdido com o formato.
Foi nesse momento que ele conseguiu pautar mais o debate. Chegou a transformar uma pergunta sobre licença maternidade – difícil de responder – em uma questão sobre a lobista Roberta Luchsinger, calcanhar de Aquiles do petista pela relação com Lulinha. A estratégia foi repetida por cerca de 15 minutos, com Flávio driblando perguntas incluindo outras.
O presidente reagiu quando passou a adotar a estratégia de insistir nas perguntas, estratégia com a qual Flávio não conseguiu lidar. Isso começou no debate sobre Daniel Vorcaro, quando repetiu o mote de sua campanha de que o empresário virou banqueiro no governo Bolsonaro e presidiário durante o período de sua gestão.
Também no primeiro bloco, LUla gerou aquele que tende a ser um dos mais compartilhados cortes do debate, ao incluir Bolsonaro entre os presidiários, quando Flávio apontou a votação do presidente nos presídios. Lula também deixou Flávio na defensiva nas questões sobre a defesa de um policial que matou uma criança, sobre a retirada do número de série de balas e sobre a política econômica de Javier Milei ser usada como modelo para uma possível gestão.
Já no segundo bloco, em pergunta sobre saúde pública, Flávio exaltou o escolhido para ser seu futuro ministro da Saúde, caso seja eleito, mostrando uma estratégia de se desvencilhar dos resultados negativos do pai, Jair Bolsonaro, durante a pandemia, quando chegou a colocar um general do Exército no cargo. Flávio chegou a admitir o fracasso do pai na área. Enquanto isso, Lula explorou a pandemia e o debate sobre saúde pública para exaltar o fato de ter mais experiência que o adversário.
Na disputa sobre segurança, Flávio acabou conseguindo fazer com que Lula defendesse a saidinha, o que era um de seus objetivos no debate. Era a resposta dos sonhos do senador em um país cada vez mais punitivista e será também um dos temas de maior discussão no pós-debate.
Enquanto isso, na pauta econômica, Lula acabou comparou dados de inflação e de aumento do salário mínimo, que são negativos ao bolsonarismo.
Ao longo de todo o debate, Lula mostrou mais nervosismo. Flávio, mais arrogância. O presidente ainda escorregou ao chamar Flávio de “malandro carioca” e, por vezes, foi técnico demais. Já o senador pareceu debochado, o que nem sempre pega bem entre o eleitor comum, longe das redes.
Lula lançou uma cartada inesperada na reta final do debate, ao propor que as contas bancárias e o sigilo telefônico dos dois sejam abertos à sociedade, entregues ao presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, e ao do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques. Flávio não aceitou o desafio, argumentando que Lula receberia recursos ilícitos por fora.
O nível duro do debate deixa claro que a eleição não está definida e que os dois candidatos estão com a faca nos dentes. A postura belicosa dos dois tende a insuflar ainda mais as militâncias na reta final, espalhando um clima quente que deve ir até as urnas e, muito provavelmente, também depois delas. O barraco e o circo durante e após as considerações finais deixa claro que não haverá pacificação.










