Do JCPE – Encerradas as convenções partidárias, Raquel Lyra (PSD) e João Campos (PSB) chegam oficialmente à campanha para as eleições em Pernambuco sustentados por estruturas políticas distintas. A governadora, que disputa a reeleição, construiu uma ampla rede de apoios municipais ao longo do mandato, enquanto o ex-prefeito do Recife reuniu uma frente partidária maior e terá mais espaço para apresentar sua candidatura no horário eleitoral gratuito.
O desenho final das alianças ajuda a mostrar como os dois principais candidatos ao Governo tentam compensar vantagens do adversário. Raquel ampliou sua presença no interior e recebe apoio até de partidos que não integram formalmente sua coligação. João, por sua vez, concentrou partidos com peso nacional em seu palanque, conta com o apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e chega à campanha com vantagem na estrutura de comunicação partidária.
Levantamento feito pelo Jornal do Commercio mostra que Raquel conta atualmente com o apoio de 145 dos 184 prefeitos pernambucanos, enquanto 39 estão no campo de João. A diferença representa um dos principais ativos da governadora para a campanha, sobretudo pela capacidade de mobilização das lideranças municipais e de associação das entregas do Governo do Estado às administrações locais.
A relação se inverte quando o critério é o horário eleitoral gratuito. Segundo cálculo do JC, baseado na metodologia prevista na Lei das Eleições, João terá aproximadamente 4 minutos e 32 segundos em cada bloco de rádio e televisão, contra 3 minutos e 51 segundos de Raquel.
Raquel com apoio de 79% dos prefeitos pernambucanos
A vantagem de Raquel entre os prefeitos foi construída especialmente ao longo dos últimos dois anos. Após as eleições municipais de 2024, a governadora passou a ampliar a interlocução com gestores de diferentes campos políticos e chega à campanha apoiada por 79% dos prefeitos do Estado, enquanto seu principal adversário, João Campos, tem 21% dos gestores.
Para a cientista política Priscila Lapa, a presença dessas lideranças continua sendo uma variável relevante em uma eleição estadual por permitir a formação do que chama de “voto de estrutura”, mesmo em um cenário político cada vez mais marcado por discussões ideológicas e pela comunicação nas redes sociais.
“A gente está muito acostumado com as discussões mais ideológicas nos últimos tempos no Brasil, mas precisa ponderar que ainda existe muito fortemente esse voto atrelado a uma estrutura amparada pelos próprios atores políticos”, afirma.
Na prática, de acordo com Priscila, o prefeito funciona como uma ponte entre as entregas realizadas no município e a candidatura estadual. Obras, convênios e investimentos podem ser apresentados pelas lideranças locais como resultado da relação mantida com o Governo do Estado.
“Você tem prefeitos lá nos municípios dizendo que uma obra está acontecendo aqui na cidade por causa da governadora ou que uma estrada foi reconstruída por causa da governadora”, exemplifica Priscila.
A cientista política relaciona, inclusive, parte do crescimento de Raquel nas pesquisas ao fortalecimento dessa base municipal após 2024. João liderava com vantagem os levantamentos realizados durante 2025, quando ainda comandava a Prefeitura do Recife, mas viu a diferença cair até ser ultrapassado pela governadora a partir das pesquisas divulgadas em abril deste ano.
O socialista, contudo, também se movimentou para construir uma estrutura fora da capital antes de deixar a Prefeitura. Durante as eleições de 2024, percorreu o Estado, apoiou candidatos em diferentes municípios e se aproximou de grupos de oposição a prefeitos que hoje estão no campo de Raquel.
Em alguns casos, seus aliados venceram. Em outros, permaneceram como forças de oposição com votação relevante. Para Priscila, esse movimento permitiu que João chegasse à eleição estadual com bases espalhadas pelo território pernambucano, mesmo em número inferior ao da governadora.
“Ele emprestou a sua popularidade para algumas lideranças locais, em alguns casos com êxito, outros não, mas ele também tem uma base”, avalia. Para a cientista política, no entanto, o chamado voto de estrutura ainda representa uma vantagem importante para Raquel.
João leva vantagem no horário eleitoral

Se a força municipal favorece Raquel, a estrutura partidária nacional garante a João mais espaço no horário eleitoral gratuito.
O candidato do PSB deverá contar com aproximadamente 4 minutos e 32 segundos em cada bloco destinado à disputa pelo Governo. Raquel terá cerca de 3 minutos e 51 segundos. A diferença entre os dois será de aproximadamente 41 segundos.
O terceiro candidato com participação nos blocos será Ivan Moraes (PSOL), da Federação PSOL-Rede, com cerca de 36 segundos. Os outros cinco concorrentes ao Governo não terão tempo no guia eleitoral.
A diferença entre João e Raquel decorre do tamanho das bancadas nacionais dos partidos e federações que integram suas coligações. Para fins do cálculo previsto na Lei das Eleições, a Frente Popular reúne legendas que somaram 206 deputados federais eleitos em 2022, enquanto os partidos da Pernambuco de Coração totalizam 173.
A vantagem no relógio, entretanto, não representa automaticamente vantagem nas urnas.
Priscila observa que o rádio e a televisão hoje convivem com um ecossistema de comunicação muito mais amplo. O conteúdo produzido para o guia pode ser recortado, replicado nas redes sociais e pautar discussões que continuam no ambiente digital mesmo depois do fim de cada programa.
“Tem essa interalimentação desses diversos canais e a gente não pode subestimar o peso que uma comunicação bem estruturada, no âmbito do programa eleitoral, pode ter”, afirma.
Segundo ela, o guia também permite às campanhas organizar uma narrativa de maneira mais estruturada, seja para apresentar propostas, explorar pontos fortes ou atacar fragilidades do adversário. Uma fala exibida na televisão pode, posteriormente, viralizar nas redes e se tornar um dos assuntos da campanha.
A diferença, portanto, dependerá também de como cada candidatura utilizará o espaço disponível.
“Não é só a quantidade de tempo. A gente já viu candidatos em outras eleições que tinham um tempo maior de campanha, mas não conseguiam se comunicar bem”, ressalta Priscila.
No cenário pernambucano, ela considera a comunicação um ativo dos dois candidatos. João utiliza esse recurso desde a construção de sua projeção política, enquanto Raquel ampliou o investimento na divulgação das ações de governo ao longo do mandato.








