Do Estadão – O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça decidiu deixar a sociedade do Instituto Iter, que oferece cursos para governos estaduais, prefeituras, tribunais de contas e outros órgãos públicos. O Estadão revelou que a instituição arrecadou pelo menos R$ 4,8 milhões em pouco mais de um ano de atividade, quando foi fundada em 2023.
Mendonça afirmou que o Instituto Iter será transformado em uma entidade sem fins lucrativos, “reforçando sua vocação exclusivamente educacional e social”. O ministro também declarou que “jamais auferiu lucro do instituto”.
A decisão ocorre dois dias após o Estadão revelar conversas entre o banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro do STF Alexandre de Moraes. Na ocasião, Mendonça determinou o levantamento do sigilo da investigação.
No dia seguinte, a newsletter Noites Húngaras, do jornalista Paulo Motoryn, no Substack, publicou que Mendonça havia recebido Vorcaro pessoalmente no início de 2025, na sede do Instituto Iter, em São Paulo. O ministro admitiu o encontro à Coluna do Estadão, disse que a conversa durou cerca de 30 minutos e que não tratou de nenhum assunto relacionado ao Banco Master.
De acordo com o ministro, o tema central do encontro foi uma pauta jurídica específica: a Suspensão de Tutela Provisória (STP) 976. O processo trata do pagamento de precatórios decorrentes de prejuízos adquiridos de uma usina do setor sucroalcooleiro, a Agro Industrial Tabu S.A.
O Instituto Iter por dentro
O Estadão mostrou em 2025 que o ministro André Mendonça é o rosto do instituto, presente nas principais peças publicitárias, e também sua principal atração. É do prestígio de seu nome que derivam boa parte dos contratos. O próprio Mendonça declara que o Iter, além de cursos, se oferece para sediar conversas com autoridades, como um lugar neutro, longe das “influências” em Brasília.
O Iter foi criado como uma empresa de sociedade limitada (Ltda.) em novembro de 2023, quando o Mendonça já integrava o STF. As atividades só começaram no início de 2024. No mesmo ano, o Iter virou uma S.A. (sociedade anônima de capital fechado).
A saída do instituto, segundo Mendonça, foi acertada na quarta-feira, 2, quando o ministro, em conversa com o presidente do Instituto e ex-ministro da Educação no governo Bolsonaro, Victor Godoy, “orientou que se tomassem as providências necessárias nos termos aqui descritos”.
“Nessas condições, o ministro permanecerá prestando serviços exclusivamente acadêmicos, na qualidade de professor”, diz o gabinete de Mendonça.
Segundo registros da Junta Comercial, o Iter tinha na sua criação em 2023 como sócia administradora Janey Mendonça, mulher do ministro. Em 2024, quando a empresa virou S.A., Janey deixou essa função que hoje é exercida por Godoy.
Além deles figuram no quadro societário colegas do ministro no governo Jair Bolsonaro: Danilo Dupas, ex-presidente do Inep; Rodrigo Hauer, chefe de gabinete de Mendonça no STF e em outros cargos anteriormente; Tercio Tokano, ex-secretário-executivo do Ministério da Justiça; e Victor Godoy, atual CEO do Iter.
Ontem o ministro André Mendonça cedeu “a totalidade de suas cotas e de sua esposa, sem qualquer contrapartida financeira”, informou o gabinete.
“As cotas, e eventuais valores a elas correspondentes, permanecerão integralmente destinados a fins sociais e educacionais, conforme o ministro já havia decidido e anunciado no início deste ano.”










