Por Paula Cordeiro – O Portal Ricardo Antunes recebeu, com exclusividade, documentos e relatos que revelam a venda da garagem de remo do Clube Náutico Capibaribe, localizada na Rua da Aurora, nº 1.201, no Recife, por R$ 584.500. O imóvel histórico, ligado à origem do clube, foi vendido em 10 de março deste ano pela plataforma Comprei, da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN), dentro de um processo de cobrança de dívidas. A operação foi realizada por iniciativa particular, e não por meio de leilão judicial.
A situação só chegou ao conhecimento de integrantes do Conselho Deliberativo depois que o sócio Rodrigo Kehrle, que já foi conselheiro do clube e deixou o cargo, descobriu a venda e comunicou o caso. Segundo a fonte ouvida pelo Portal, o Conselho não havia sido informado sobre o andamento do processo. À reportagem, a fonte destacou a importância histórica do imóvel para os alvirrubros:
“O Náutico perdeu um dos seus patrimônios históricos. A origem do Náutico veio do remo, então, para nós, alvirrubros, é de extrema importância essa garagem de remo aí, que começou em 1901.”
A venda ocorreu no âmbito da execução fiscal nº 0010500-27.2013.4.05.8300, que tramita na 33ª Vara Federal de Pernambuco. O imóvel, registrado sob a matrícula nº 75.317, foi avaliado judicialmente em R$ 835 mil, em março de 2025. Como a venda foi autorizada por 70% desse valor, o preço ficou em R$ 584.500. O comprador foi o empresário Tito Pereira de Lima, e o pagamento foi feito de forma parcelada, com R$ 146.125 de entrada e outras 59 parcelas previstas no negócio.

Clube foi avisado antes da venda
A documentação analisada pelo Portal mostra que a situação da garagem já vinha sendo discutida havia anos. Em abril de 2024, o próprio Náutico informou à Justiça da recuperação judicial que os imóveis formavam a garagem de remo e eram essenciais para o clube. Em setembro daquele ano, o juízo da recuperação judicial também reconheceu a importância dos imóveis. Em junho de 2025, porém, a Justiça indicou o imóvel da Rua da Aurora para garantir o pagamento de dívidas cobradas em outros processos, considerando que ele não era utilizado no futebol.
O clube foi comunicado dessa decisão em junho de 2025 e apresentou uma manifestação em julho. Segundo os documentos, porém, o texto tratou de outros assuntos e não questionou a situação da garagem. Em 23 de julho, a 33ª Vara Federal autorizou a venda do imóvel pela plataforma Comprei, com preço mínimo de 70% do valor da avaliação. O Náutico recorreu da decisão relacionada à sede do clube e conseguiu suspender aquela venda, mas não apresentou recurso contra a autorização para a venda do galpão.
Em novembro de 2025, o clube recebeu uma nova comunicação sobre a autorização da venda e teve até 17 de dezembro para se manifestar. Segundo os registros do processo, não houve resposta. Em dezembro, a Fazenda Nacional informou à Justiça que a venda já estava sendo realizada pela plataforma Comprei. O Náutico foi novamente comunicado sobre a suspensão do processo, mas também não apresentou manifestação naquele momento.
A venda foi concluída em 10 de março de 2026. O processo registra o valor de R$ 584.500 e a identificação do comprador. Depois disso, o clube só voltou a se manifestar sobre a garagem em julho, cerca de oito meses após a comunicação feita em novembro de 2025.
Na petição apresentada em 24 de julho, o Náutico afirmou ter sido “surpreendido” pela venda e questionou a realização da operação enquanto o processo estava suspenso. A Justiça rejeitou o pedido em 8 de setembro. Na decisão, o juiz considerou que o clube já tinha conhecimento da situação desde 2025 e determinou que o processo continuasse para formalizar a transferência do imóvel ao comprador.
Para a fonte ouvida pelo Portal, o problema não foi apenas a perda do imóvel, mas também a falta de reação diante das comunicações feitas pela Justiça.
“Faltou defesa mesmo, isso é um absurdo, um dos patrimônios mais importantes do clube”, afirmou.
Em outro momento, a fonte reforçou:
“O Náutico recebeu as intimações, está nos documentos, mas ninguém se manifestou.”
Os registros do processo mostram que o clube recebeu diferentes comunicações antes e depois da autorização da venda.

Conselho cobra explicações e cria comissão
A perda da garagem provocou uma reunião extraordinária do Conselho Deliberativo, realizada na noite do último dia 14. O encontro teria sido convocado pelo presidente do Conselho Fiscal e contou com a presença do advogado terceirizado Daniel Nejaim, enquanto o diretor jurídico André Jales teria informado que estava doente.
A fonte afirma que foram cobradas explicações sobre a atuação jurídica do clube e relata que houve uma discussão durante a reunião. Segundo o relato, cerca de 30 conselheiros reagiram a uma fala do presidente Bruno Becker e pediram que ele “respeitasse a casa e baixasse o tom, porque a garagem do remo foi arrematada e nós estamos aqui tentando ajudá-lo”.
Ao final da reunião, foi criada uma comissão especial formada por cerca de cinco ou seis advogados, escolhidos em votação, para analisar o caso junto ao advogado Daniel Nejaim e tentar recuperar o imóvel. O grupo pretende buscar alternativas, inclusive uma possível arrecadação para devolver ao comprador o valor pago inicialmente.
“Estamos pensando até em fazer uma cotinha ou vaquinha para reembolsar os R$ 150 mil do comprador. Criamos essa comissão mesmo sabendo que as chances são poucas, pois queremos recuperar esse patrimônio tão importante para o clube”, afirmou.
A comissão também deverá analisar as responsabilidades relacionadas à condução do caso e a possibilidade de abertura de processos administrativos.
“A comissão também foi criada para verificar as responsabilidades dos envolvidos nos acontecimentos”, relatou.
As críticas feitas pela fonte à diretoria e ao departamento jurídico são alegações e não representam, por si só, uma conclusão sobre eventual responsabilidade dos envolvidos.
A situação ainda não está encerrada na Justiça. A decisão de 8 de setembro rejeitou o pedido do Náutico para anular a venda e determinou o avanço da transferência, mas os prazos para novos recursos ainda estão abertos. A garagem da Rua da Aurora, ligada à história do remo e à própria origem do Clube Náutico Capibaribe, agora é alvo de uma tentativa de recuperação na Justiça e de uma cobrança interna por explicações sobre a condução do caso.
O OUTRO LADO
Procuramos a assessoria do Clube Náutico Capibaribe para obter esclarecimentos sobre a venda da garagem, a atuação do departamento jurídico e as medidas adotadas para tentar recuperar o imóvel, mas ainda não obtivemos retorno. Esta matéria poderá ser atualizada.
Veja o documento:












