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Home Política

Pivô da crise com Moro é um dos policiais federais mais ligados a Bolsonaro

Por Ricardo Antunes
30/01/2020 - 14:29
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O pivô da crise entre o ministro da Justiça, Sergio Moro, e o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) é um dos policiais federais mais próximos do presidente da República. Anderson Torres, secretário de Segurança do Distrito Federal, quase foi escolhido diretor-geral da Polícia Federal pouco antes da eleição do então candidato do PSL ao Palácio do Planalto.

Na semana passada, o presidente se reuniu com os secretários de Segurança de todo o país sem a presença de Moro, quando discutiu a possibilidade de dividir o ministério da Justiça e da Segurança em dois. Duas horas antes do encontro, Torres foi recebido por Bolsonaro no Planalto). No dia anterior, havia se queixado de Moro em um ofício. Diante da repercussão negativa, Bolsonaro recuou da ideia de desmembrar a pasta do ex-juiz da Operação Lava Jato, que mantém, por ora, seu comando sobre Polícia Federal.

Os caminhos que se previam para Torres mudaram na reta final da campanha eleitoral de 2018. E tudo com a chegada de Moro ao governo de transição.

O ex-juiz foi escolhido ministro da Justiça com direito a “porteira fechada” nas nomeações e a um ministério turbinado, com a incorporação de vários órgãos poderosos, como o Ministério da Segurança Pública, o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) e a CGU (Controladoria Geral da União). Ao final, a CGU acabou ficou de fora da pasta e o Coaf — tormento do filho do presidente da República —, também.

Acusado de tortura, delegado foi inocentado

Com essa mudança na configuração do futuro governo Bolsonaro, ainda em 2018, Torres acabou indo para o Governo do Distrito Federal. O governador de Brasília, Ibaneis Rocha (MDB), o nomeou secretário de Segurança.

Anderson Gustavo Torres tem 43 anos e é delegado da Polícia Federal. Foi papiloscopista da Polícia Civil de Goiás. Na PF, atuou em Roraima e nas operações na reserva indígena Raposa Serra do Sul, que acabaram por prender em 2008 o agricultor Paulo César Quartiero, líder dos arrozeiros da região.

Torres chegou a ser acusado de tortura. A investigação foi arquivada e reaberta, mas ele acabou absolvido em 2018. Houve “pedido de absolvição pelo próprio Ministério Público Federal com base na inexistência dos fatos”, afirmou o delegado em nota divulgada no ano passado.

Deputado aproximou secretário de Bolsonaro

Em Brasília, Torres trabalhou para a Associação dos Delegados da Polícia Federal (ADPF), como diretor de assuntos legislativos, tarefa em que fazia o meio de campo entre os policiais e os congressistas. A chapa da ADPF foi formada com o apoio do ex-deputado federal Fernando Francischini (PSL-PR).

Com a eleição de Francischini para a Câmara, em 2010, Torres tornou-se seu chefe de gabinete. Ele atuou na CPI que investigou o bicheiro Carlinhos Cachoeira.

Foi no Congresso que conheceu Jair Bolsonaro. Era comum ver o hoje presidente e o assessor de Francischini discutindo projetos e estratégias nas comissões e nos corredores da Câmara dos Deputados.

Bolsonaro chegou a fazer consultas a Francischini e a Torres sobre procedimentos de investigação da polícia. O presidente conhece outros policiais na corporação, mas a dupla está entre os mais próximos dele.

Por meio do senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ), Jair Bolsonaro foi apresentado ao delegado Alexandre Saraiva, chefe da corporação no Amazonas. Outro filho de Bolsonaro, o deputado Eduardo (sem partido-SP) é escrivão da PF mas tem pouco trânsito na polícia. Em 2018, ele mesmo disse num seminário de policiais que havia feito campanha em 2014 sem fazer qualquer referência à PF.

No ano passado, quando Jair Bolsonaro disse que iria “arejar” a polícia e ameaçou demitir o diretor da PF, Maurício Valeixo, logo se pensou no nome de Torres. Agora, a polêmica reunião de secretários de Segurança com Bolsonaro, mas sem a presença do ministro da Justiça, retomou a ideia da troca na polícia.

Torres não quer comentar o assunto. Durante três dias, o UOL tentou entrevistá-lo. “O secretário segue com agenda intensa e sem disponibilidade para entrevistas no momento”, informou a assessoria da Secretaria de Segurança Pública.

A reportagem apurou que, independentemente de ser escolhido diretor da PF ou não, Torres defende que a corporação tenha uma atuação forte de controle de fronteiras.

O delegado é próximo também do ex-deputado Alberto Fraga (DEM-DF), amigo do presidente da República. Na véspera do Natal, Torres, Fraga, Ibaneis, o ex-assessor do Planalto Gustavo Rocha se reuniram com o ministro da Secretaria Geral da Presidência, Jorge Oliveira, e Jair Bolsonaro no Palácio do Alvorada.

Lá, posaram para uma foto, que foi compartilhada pelo Planalto. E conseguiram que Bolsonaro assinasse uma medida provisória para dar aumento para policiais civis e militares de Brasília.

Transferência de Marcola contrariou secretário

A relação de Moro e Bolsonaro deve ter novos capítulos. O ministro é possível candidato a presidente em 2022 e tem mais popularidade que o próprio presidente, que temeu que seu principal assessor pedisse demissão.

Da mesma forma, a relação do ministro da Justiça com o governo de Brasília não é boa desde a transferência do traficante Marcos Herbas Willian Camacho, o “Marcola”. Por iniciativa de Moro, o criminoso foi trazido da penitenciária federal de Rondônia para a Brasília.

Na semana passada, o traficante recebeu atendimento médico fora do presídio e houve mobilização de forças de segurança federais. Em ofício a Moro no dia 21, Torres reclamou: “Reforço a solicitação inicial de informações visando organizar as forças de segurança de nosso estado para fazer frente a eventuais ameaças perpetradas por essas organizações criminosas”.

O ofício se tornou público no dia seguinte. Naquela quarta-feira 22, Moro fez questão de respondê-lo por meio de uma nota no site do Ministério da Justiça: “Não há qualquer reclamação da permanência desses presos em Brasília, salvo do próprio Governo do Distrito Federal”.

E acrescentou: “não havendo motivos para que elas gerem qualquer espécie de alarme desnecessário”. Moro afirmou na resposta que a pasta “sempre esteve à disposição para o diálogo” com a secretaria de Torres.

No mesmo dia em que o ofício de Torres se tornara público, o dia 22, houve a reunião dos secretários de Segurança com Bolsonaro. E a crise recomeçou até ser apaziguada pelo próprio presidente.

Fonte: Eduardo Militão, do UOL
Tags: CriseSegurançaSergio Moro
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Ricardo Antunes

Ricardo Antunes

Ricardo Antunes é jornalista, repórter investigativo e editor do Blog do Ricardo Antunes. Tem pós-graduação em Jornalismo político pela UnB (Universidade de Brasília) e na Georgetown University (EUA). Passou pelos principais jornais e revistas do eixo Recife – São Paulo – Brasília e fez consultoria de comunicação para diversas empresas públicas e privadas.

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