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“A morte do homem cordial”. O último artigo de Eduardo Portela que se foi hoje. Recomendo

Por Ricardo Antunes
21/09/2019 - 16:06
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Eduardo Portella,

A aliança de modernismo e ufanismo alimentou, desde cedo, a ilusão do brasileiro como protótipo do homem cordial. Faz parte daquelas fantasias que impulsionaram a virada do século XX. A efusão da natureza, a força do sertanejo e a cordialidade inata são capítulos de uma história precipitadamente edificante. Foi surpreendida por algumas curvas do caminho, quando certos desvios inesperados, a urbanização avassaladora, a irrupção das massas e a privatização da esfera pública agravaram o quadro insólito.

A percepção aguda de Mário de Andrade já havia identificado, na sua “Pauliceia desvairada”, sinais evidentes de um desvario que se expandiu por todo o território nacional, de Porto Alegre a Manaus.

A máquina de trituração da metrópole avançou sem pedir nem aceitar licença de ninguém. O tripé republicano, com mecanismo de acesso controvertido, se visivelmente abalado, em meio a licitações ilícitas, negócios escusos conduzidos pelas municipalidades de várias geografias. A representação política perde legitimidade e, consequentemente, representatividade.

O poeta Carlos Drummond de Andrade certamente perguntaria: E agora, José?

A própria ideia de cordialidade já era um resíduo essencialista, que os pensadores plantados teriam dificuldades de absorver. Porque nenhum homem é ou deixa de ser cordial fora do seu horizonte existencial. Ou seja, indiferente à sua circunstância (Ortega), à sua situação (Sartre), aos angustiantes sinais do ser no tempo (Heidegger).

Assim sendo, o homem cordial brasileiro levantou voo sem gasolina no tanque, e deu no que deu. Alguma coisa parecida com o trajeto da Chapecoense.

O capítulo da escravidão nunca foi um exemplo de cordialidade. E fomos os últimos na América Latina a se livrar dessa praga.

Os índices de violência hoje, segundo agências idôneas, ultrapassam aqueles que têm lugar em países em estado de guerra.

As taxas de homicídio, praticados dentro e fora dos presídios, nos conferem medalha de ouro (falso) na olimpíada da criminalidade.

A junção de violência social e violência política denuncia o quadro de calamidade, que começa a ser institucionalizado em todo o país.

A privatização do público é a negação da cordialidade.

Grande parte do que vem acontecendo se deve ao fato de que a educação e a cultura não foram chamadas a participar do encaminhamento dessas questões. Duas entidades estruturalmente solidárias, a serem pensadas conjugadamente, no polo oposto do que supõem as corporações nervosas.

A educação é, em princípio, a cultura escolarizada. Enquanto a cultura é a educação transescolar, mais virtuosa que virtual. Ambas têm de conviver hoje com a internacionalização e com a internetização.

Não são da competência apenas de uma repartição ou de um ministério. São ambas, ou uma só, políticas de Estado. Por essas e outras razões, tem faltado cultura à educação e educação à cultura. E, na falta de ambas, facilita-se ou contribui-se para a proliferação da violência e da criminalidade.

O homem cordial já se encontrava respirando por aparelhos. Ultimamente, ao que tudo indica, esses aparelhos foram desligados.

É claro que tudo tem a ver com a prática da justiça social. Quando aumenta a desigualdade, diminui a cordialidade.

Daí a necessidade de uma reforma política, ampla, geral e irrestrita, a ser conduzida jamais pelos protagonistas do caos, e sim pelo mais íntegro diálogo societário.

Eduardo Portella foi escritor , professor da UFRJ, ministro dos Governos JK e Figueiredo e membro da Academia Brasileira de Letras ( 1932-2017)

Violência urbana (Foto: Arquivo Google)

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Ricardo Antunes

Ricardo Antunes

Ricardo Antunes é jornalista, repórter investigativo e editor do Blog do Ricardo Antunes. Tem pós-graduação em Jornalismo político pela UnB (Universidade de Brasília) e na Georgetown University (EUA). Passou pelos principais jornais e revistas do eixo Recife – São Paulo – Brasília e fez consultoria de comunicação para diversas empresas públicas e privadas.

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