Do TAB UOL – A Polícia Federal encontrou indícios de que Belline Santana, servidor do Banco Central, teria cobrado um pagamento de R$ 500 mil do grupo de Daniel Vorcaro uma semana após enviar ao Ministério Público Federal a denúncia que fundamentou a primeira prisão do dono do Banco Master, em novembro de 2025.
A PF descreve os pagamentos feitos a Santana como propina. O banqueiro, porém, nega que tenha praticado “qualquer ato de corrupção envolvendo os servidores mencionados na investigação em curso”.
O envio da denúncia e as mensagens com as cobranças estão em um conjunto de mais de 25 mil páginas de documentos da investigação do caso Master obtido pelo UOL. O material revela novos detalhes da relação de Daniel Vorcaro com servidores suspeitos de atuarem em seu favor na autarquia.
O Banco Central produziu em julho de 2025 um “relato sucinto de ocorrência” —documento em que detalha as suspeitas de fraudes bancárias envolvendo carteiras do Banco Master vendidas por R$ 12 bilhões ao BRB (Banco de Brasília).
Belline Santana era o chefe do Desup (Departamento de Supervisão Bancária) no Banco Central. Coube a ele enviar o documento com as suspeitas ao MPF, após aval da Procuradoria-Geral do BC. Ele encaminhou o material em 15 de julho de 2025 à chefe da Procuradoria da República no Distrito Federal, Anna Carolina Resende Maia Garcia.
“O Banco Central do Brasil, no exercício de suas atribuições, apurou a existência de irregularidades praticadas no âmbito do Banco Master S.A., consistentes na aquisição e cessão de créditos de forma irregular, bem como na efetuação de escrituração contábil em desacordo com a regulamentação e, em consequência, na elaboração de demonstrações financeiras e contábeis que não refletiam com fidedignidade e clareza a real situação econômico-financeira da instituição”, diz o ofício assinado por Santana.
Uma semana depois do envio da denúncia, Santana volta a ser citado nas conversas de WhatsApp entre Vorcaro e seu cunhado Fabiano Zettel, suspeito de ser o operador financeiro do banqueiro.
Zettel escreveu, em 22 de julho: “Bellini cobrando. Paga?”. Vorcaro respondeu que sim e questionou como o pagamento vinha sendo feito. Seu cunhado diz: “Sai pra Super. Super manda empresa Léo. Empresa Léo que tem contrato com ele”.
A descrição feita por Zettel, segundo a PF, indica que os pagamentos da propina eram feitos de forma a esconder a origem dos recursos. O grupo de Vorcaro destinava os valores usando a Super Empreendimentos e Participações, que repassava os valores para a Varajo Consultoria, de Leonardo Palhares, para então serem entregues a Belline Santana, aponta a investigação da PF.
Uma planilha encontrada pela polícia no celular de Vorcaro, com o título “despesas fixas mensais”, previa o pagamento de R$ 500 mil para o servidor do Banco Central. A investigação não identificou, até o momento, o valor total repassado a Belline Santana.
Procurada, a defesa de Belline Santana repudiou o vazamento de informações do inquérito e disse que as provas revelam que o servidor “sempre exerceu suas funções no Banco Central do Brasil de forma técnica e lícita”. O advogado Leonardo Palazzi afirmou ainda que seu cliente adotou todas as medidas cabíveis, inclusive cooperando com as autoridades competentes.
“Qualquer tentativa de vincular o Sr. Belline Santana a irregularidades ou práticas ilícitas não encontra respaldo nos próprios elementos de investigação —que, frise-se, tramita sob sigilo— decorrendo apenas da divulgação fragmentada e descontextualizada de informações sigilosas, aparentemente orientada por finalidades escusas”, conclui a defesa.
Vorcaro prestou depoimento à Polícia Federal na última semana sobre sua relação com os funcionários do Banco Central. A defesa diz que o banqueiro respondeu “de forma clara e consistente a todos os questionamentos que lhe foram imputados” e negou “qualquer ato de corrupção envolvendo os servidores mencionados na investigação em curso”. Por fim, colocou-se à disposição de uma colaboração premiada.

Pesquisas
Horas após as supostas cobranças de Santana, o grupo de Vorcaro passou a fazer pesquisas nos sistemas internos do MPF e da PF para descobrir quais investigações contra o banqueiro estavam em curso, segundo a investigação.
Na noite de 22 de julho de 2025, o login de um servidor do MPF foi utilizado para fazer as pesquisas — a investigação aponta ele que pode ter sido hackeado ou também faria parte do grupo de Vorcaro. Um dos processos encontrados, segundo a PF, foi a investigação que “constituiu o marco inicial da Operação Compliance Zero, a qual culminou na prisão de Daniel Vorcaro”.
“Daniel Vorcaro estava se utilizando de acessos ilícitos para obter informações sigilosas sobre a presente investigação”, destacou a Polícia Federal.
A suspeita dos investigadores é que as pesquisas passaram a ser feitas após possível vazamento de informações de Belline Santana sobre as denúncias do Banco Central.
Falhas no pagamento
Os pagamentos para o servidor do BC começaram em outubro de 2023, segundo a PF. Mensagens trocadas entre Vorcaro e Zettel mostram que o início dos repasses para Santana foi conturbado.
Em 26 de outubro de 2023, Zettel comunicou a Vorcaro: “Hoje tem que pagar a primeira do Belline, ok?”. Vorcaro respondeu que o pagamento estava autorizado. “Mas veja se o leo pode pagar. E reembolsamos dia seguinte. Bem importante isso”, disse o banqueiro.
Zettel explicou que ele pedia para Leonardo Palhares pagar antes e só depois ele era ressarcido.
Dois meses depois, porém, Zettel e Vorcaro se desentenderam sobre a forma do pagamento. O cunhado enviava dinheiro do Banco Master para a Super Empreendimentos, que depois repassava o valor para Santana.
“Mesmo que indiretamente NAO pode. De jeito nenhum. Pqp. Falei no início isso”, respondeu Vorcaro. “Me fala o caminho então. Empresa Léo só 10/01. Achei que tendo recurso, podia”, explicou Zettel.
A Polícia Federal conclui, no documento, que infere com pouca margem para dúvidas que Vorcaro adotou “expediente fraudulento, simulando prestação de serviços, para pagamento de propina a servidor público”.










