Por Carol Tilkian, da Folha de SP – Não sou ligada em futebol e mal vi a Copa. Mas, mesmo sem me engajar nos jogos, me deliciei observando o comportamento dos brasileiros —em especial a desproporção da inimizade com os argentinos. A quantidade de gente torcendo contra os hermanos e o quanto inflamamos essa rivalidade são material riquíssimo para pensar comportamentos do nosso “jogo da vida” conjugal.
A psicanálise já aponta a presença incômoda de um terceiro no cerne de toda relação. O complexo de Édipo ilustra bem o desassossego de perceber que nossa fonte primeva de amor, a mãe, também ama outro alguém. Lidar com o desejo dividido do outro, e com a constatação de que não bastamos ao amor de quem amamos, é extremamente angustiante —e demasiadamente humano.
Mas, na tentativa de parecermos seguros e bem-resolvidos, evitamos falar dos medos que nos assombram quando sentimos a relação desconectada. Deslocamos esse desconforto para fantasmas do passado ou monstros do presente. Encontramos um terceiro. Um argentino. Um ou muitos rivais imaginários que personificam vilões de nossas fábulas infantis, escritas agora por adultos carentes, inseguros, esgotados.
Também vale nomear um grupo que poderia ser aliado de uma vida interessante, não fosse o desassossego de não ser tudo para o outro: as amigas, o povo do futebol, o trabalho. Todos representantes da vida que não te inclui. Dói perceber que seu amor ri mais alto com a turma do que com você; que vira a noite num projeto corporativo, mas tem preguiça de ver o filme que você sugeriu se ele passar de 1h40. Incomoda que exista um pedaço de prazer e vitalidade acontecendo longe do seu olhar e sem a sua participação.
Em todos os casos, o inimigo é a alteridade: o fato banal e insuportável de que a pessoa que você ama continua sendo um sujeito inteiro, com um mundo ao qual não temos acesso. E os chamo de imaginários porque, na maioria das vezes, essas pessoas nem estão rivalizando com você. O enteado te adora e o ex dela já está em outra.
O inferno somos nós, e não os outros, como defendia Sartre. Nós, cada vez mais inseguros. Segundo minha pesquisa “Raio X da Vida Afetiva” com mil brasileiros, 1 a cada 3 tem medo de não ser suficiente para o parceiro. E quando não nos autorizamos a falar desse medo —como se confessar a carência fosse “cavar faltas” para nossa expulsão do jogo amoroso—, encontrar inimigos externos é tentar ganhar no “mata-mata”.
É mais fácil apontar a ex, o amigo, o enteado do que dizer “tô me sentindo sozinho ao seu lado”. Mais fácil brigar pela mãe dele do que confessar “não sei mais se você me deseja”.
Mas quem já torceu para a ex pisar na bola ou para o chefe se mostrar abusivo para provar que tínhamos razão sabe que trazer o parceiro para o nosso lado resolve só por um instante.
Aí vem a ironia trágica. De tanto lutar contra inimigos imaginários, viramos o inimigo real da relação. O ciúme da ex sufoca o outro. A vigilância por causa do amigo empurra-o para longe. A raiva que não confesso do enteado vai envenenando a casa inteira. E você, que dizia defender o amor, acaba sendo agente da destruição.
Te convido a colocar em campo seus incômodos como peças do seu caleidoscópio emocional, e não como respostas a rivais. Divida seu imaginário —sonhos e pesadelos— sem precisar colocar inimigos neles. Eles são seus. Peça colo, ajuda, compreensão. Podemos jogar com nossos parceiros sem os proibir de brincar outras brincadeiras com outros amores.










