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Internet móvel em Cuba foi fator determinante para ondas de protestos no país

Por Ricardo Antunes
12/07/2021 - 22:03
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A internet móvel, que só chegou a Cuba em 2018, foi determinante para a magnitude dos protestos que tomaram a ilha no último domingo. O acesso a todo o tipo de informação na palma da mão foi o ponto de virada que permitiu pela primeira vez em quase 30 anos uma alta adesão às manifestações, que aconteceram em praticamente todas as 15 províncias do país e 40 cidades, segundo cálculo do site de jornalismo de dados Inventario. Além disso, segundo analistas, a internet móvel foi crucial para que as marchas tivessem um caráter nitidamente político.

De 2015, quando a internet passou a ser uma realidade na ilha, a 2018, os cubanos tinham uma conectividade restrita: precisavam ir a uma praça pública para acessar a rede ou pagar US$ 1 dólar por hora em cafés, uma soma fora do alcance de boa parte da população. Isso mudou com a chegada do 3G, em 2018, explica David Nemer, professor da Universidade da Virgínia que há seis anos estuda a internet em Cuba. Com isso, a ilha passou a ter 7,1 milhões de pessoas conectadas — 63% da população, segundo dados do ano passado.

— Com a chegada dos planos de internet ao celular, a dinâmica de uso mudou rapidamente. Não é de se surpreender que o WhatsApp tenha virado a principal plataforma de comunicação entre os cubanos — disse Nemer ao GLOBO. — Os grupos políticos de oposição também começaram a se organizar, em agosto de 2019, primeiro no Facebook, depois no Whatsapp, cada vez menores para burlar infiltrados. É difícil mensurar o tamanho desse planejamento, porque eles têm muito cuidado em relação a isso, mas houve claramente uma organização dos protestos de domingo pelo Whatsapp.

Para Jorge Duany, diretor do Instituto de Pesquisas Cubanas da Universidade da Flórida, é muito difícil hoje imaginar um protesto em Cuba que em um dia atraiu milhares de pessoas sem as redes sociais e a difusão da internet.

— A internet foi o fator chave para que uma quantidade enorme de pessoas se mobilizasse. Houve um nível de coordenação por parte de alguns grupos, principalmente de figuras importantes do Movimento San Isidro, como Luis Manuel Otero Alcántara, que deram declarações para insuflar os protestos. Mas em geral foi uma ação relativamente espontânea das redes — diz. — E isso explica por que o governo cubano decidiu interromper o acesso à internet desde a tarde de domingo. É um fenômeno abertamente político.

O Movimento San Isidro ficou conhecido fora de Cuba após um protesto inédito em novembro do ano passado, quando cerca de 300 artistas e intelectuais se reuniram em frente ao Ministério da Cultura, em Havana. Os integrantes do San Isidro, cuja sede fica no bairro de mesmo nome na capital cubana, pediam a libertação do rapper Denis Solís, preso no início do mês sob a acusação de desacato à autoridade, e libertado nesta segunda-feira, horas após as manifestações, depois de cumprir pena de oito meses por desacato a agentes da polícia.

O movimento afirmou hoje que 45 de seus integrantes foram detidos, dentre eles Otero Alcántara, que este ano fez uma greve de fome — cinco já teriam sido libertados. No total, segundo opositores, cerca de 80 manifestantes, ativistas e jornalistas independentes foram presos no domingo.

Os protestos foram os maiores desde o chamado “maleconazo” de 1994, que tomaram Havana durante o Período Especial, a crise que a ilha atravessou depois da dissolução da União Soviética, com queda de 35% do PIB e racionamento de comida. Agora, no entanto, há um claro viés político nos slogans dos manifestantes, que pedem mais liberdade e a saída do presidente Miguel Díaz-Canel, além de cantar trechos do rap “Patria y vida”, lançado neste ano e que virou o hino da insatisfação cubana ao desafiar o lema “pátria ou morte” consagrado por Fidel Castro na revolução de 1959.

— Os artistas têm sido fundamentais para levantar o ânimo da sociedade na luta por seus direitos — afirma a ativista e cientista social cubana Marlene Azor, radicada no México. — A política cultural do governo cubano também está em crise devido às sucessivas repressões, com grande eco internacional não só de artistas cubanos, mas também acadêmicos e intelectuais de vários países latino-americanos e europeus. Além disso, a imprensa digital independente ampliou as denúncias de repressão contra artistas, jornalistas e defensores dos direitos humanos, que são diárias e em todas as partes do país.

As causas que levaram à frustração generalizada são muitas: a queda do turismo, principal receita do governo e também de cubanos empreendedores, causada pela a pandemia; o desabastecimento de medicamentos e insumos médicos, já que os poucos recursos para a área estão sendo usados para a criação de uma vacina própria; a mudança cambial recente, que corrigiu com muito atraso as distorções da moeda cubana; o endurecimento das sanções americanas no governo do ex-presidente Donald Trump.

Duany afirma que se trata de um movimento muito mais amplo e diverso, que não foi planejado, mas resultado de uma “explosão”, que começou com a hashtag #SOS Matanzas, com o qual cubanos denunciavam a escassez de insumos, medicamentos e até profissionais de saúde para lidar com um foco da pandemia na província, que na sexta-feira atingiu a marca de 3 mil casos diários, metade das infecções de todo o país, um recorde.

— Diria que o fator detonante foi a pandemia. Mas ele é resultado de uma série de processos, sociais, econômicos, políticos e sociais que foram se acumulando. Um dos sinais de que o nível de descontentamento é crescente é o aumento no número de balseros [cubanos que se aventuram em balsas rumo a Miami]: apenas este ano foram mais de 500 pessoas, 10 vezes mais que todo o ano passado.

Nemer ressalta que essa insatisfação generalizada foi amplificada pelos grupos de Whatsapp. E alerta que muitos se aproveitaram dessa frustração para disseminar notícias falsas.

— Como o governo não sabe lidar com ideias opositoras, desligou a internet. Mas os protestos estão virando cada vez mais frequentes e o governo terá que amadurecer, porque isso fará parte da nova realidade. A grande pergunta é justamente como o governo irá reagir, se irá encontrar ou não um diálogo.

Fonte: O Globo
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Ricardo Antunes

Ricardo Antunes

Ricardo Antunes é jornalista, repórter investigativo e editor do Blog do Ricardo Antunes. Tem pós-graduação em Jornalismo político pela UnB (Universidade de Brasília) e na Georgetown University (EUA). Passou pelos principais jornais e revistas do eixo Recife – São Paulo – Brasília e fez consultoria de comunicação para diversas empresas públicas e privadas.

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