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Milícia: o vácuo do Estado gera o poder paralelo

Por Ricardo Antunes
21/09/2019 - 17:21
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Marco Antônio
Barbosa da CAME Brasil.

As
milícias vêm tomando conta dos noticiários político e policial do país.
Descritas nominalmente no novo pacote anticrime do Ministro da Justiça, Sérgio
Moro, estas facções se expandem em diversos estados, principalmente no Rio de
Janeiro, onde dominam até o aluguel de prédios nas periferias, como investigado
no caso do último dia 12 de maio, quando um conjunto habitacional irregular
desabou na comunidade da Muzema, zona oeste da cidade. Mas por que as Milícias
crescem?

Comunidade da Muzema no Rio de Janeiro, onde prédios irregulares desabaram.

O
vácuo deixado pelo Estado sempre precisa ser ocupado. É neste momento que
surgem os poderes paralelos. Quando não existe, por parte dos governantes,
políticas para prover segurança, moradia, saneamento básico, gás, luz, entre
outros itens de sobrevivência para os mais carentes, alguém toma esta
responsabilidade em troca de dinheiro e poder. É a privatização das
responsabilidades. Mas o preço é bastante alto e quem paga, mais uma vez, é o
lado mais fraco da corda: a população.

Mas
quem são os milicianos? São parte do Estado, travestidos de organizações
‘privadas’. Os mesmos que, do outro lado da moeda, também sofrem com o abandono
dos políticos, mas possuem um pouco mais de acesso ao poder para se ‘virarem’.
Policiais, que trabalham com salários ínfimos e com condições precárias,
enxergam uma oportunidade. Agentes públicos, atolados em burocracias arcaicas e
riscos não assumidos como, por exemplo, morrer por não liberar um ‘gato’ de luz
ou uma obra irregular.

A
falta de políticas públicas devasta as duas metades: os que prestam os serviços
clandestinos e os que precisam de tais serviços. Este ciclo se retroalimenta.
Assim como os cartéis do tráfico, as milícias utilizam também a mão de obra
ociosa de uma população que não encontra a oportunidade do crescimento de renda
pela educação. A escolha é única para quem não tem nem o que comer.

Milicianos do Rio de Janeiro.

Organizadas
e intrínsecas nas raízes mais fortes de um Estado falido, as milícias crescem e
são cada vez mais difíceis de serem combatidas. Como acabar com o inimigo se
ele é o próprio braço que deveria derrotá-lo?

É um
câncer. Uma doença difícil de ser curada, mas o remédio está ao alcance dos
nossos políticos há muito tempo. Ocupar os espaços deixados é caminho. Onde
falta moradia, casas. Onde falta educação, escolas. Onde falta infraestrutura,
saneamento básico, luz e água. Este é o tratamento a longo prazo.

Em
curto prazo são necessárias grandes investigações isentas e independentes e
leis mais duras para quem faz parte do crime organizado. Inteligência policial
integrada em todo o país, além de salários e estrutura dignas para o risco
assumido ao enfrentar estas facções.

Este
‘vírus’ é uma versão mais grave do crime organizado, pois já entendeu como se
esconder e se expandir dentro do poder legislativo, executivo e jurídico.
Somente com este coquetel e muita paciência conseguiremos evitar o domínio das
milícias. Nota médica: o tratamento deve ser iniciado o mais rápido possível,
antes que seja tarde para salvar o paciente.

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Ricardo Antunes

Ricardo Antunes

Ricardo Antunes é jornalista, repórter investigativo e editor do Blog do Ricardo Antunes. Tem pós-graduação em Jornalismo político pela UnB (Universidade de Brasília) e na Georgetown University (EUA). Passou pelos principais jornais e revistas do eixo Recife – São Paulo – Brasília e fez consultoria de comunicação para diversas empresas públicas e privadas.

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